Um lugar para libertar ideias, um lugar para organizar a mente, um lugar para discutir a feiura do mundo e encontrar os respingos de um arco iris...
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Seres humanos, esses seres difíceis
Enfim.... a vida é mesmo assim!!!!
Os seres humanos vivem a reclamar da solidão, da dificuldade de ser feliz, do trabalho estafante, de como a vida é difícil e tudo o mais.... Mas, quem torna tudo isso tão difícil?
Será que não somos nós, os próprios humanos que dificultamos tudo a nossa volta?
Parece incrível, mas quando se propõe algo pra simplificar a vida e simplesmente VIVER, as pessoas se apavoram....
Tudo tem que estar dentro das regras. Regras essas inventadas pelos próprios humanos!!!
Surreal!!!
Os relacionamentos humanos deveriam ser mais leves, mais tranquilos, mais felizes....
As pessoas deviam se amar e pronto... sem cobranças, medos, incertezas....
Porque o medo da maioria das pessoas em se relacionar com outras pessoas?
É tudo tão simples!!! Basta não dificultar as coisas pra sermos felizes.... simples assim....
Mas não.... aí não seriamos HUMANOS....malditos humanos.....
O jeito é ir levando e tentando sobreviver a esse mundo maluco.
Queria que as pessoas pudessem compreender que a coisa mais importante da vida é sermos felizes.... e sermos livres é o início dessa tal felicidade.... Então pra que prender as pessoas? Pra que cobrar delas coisas que não deviam nos importar? Por que fugir com medo dessas prisões imaginárias?
O resultado disso é que as pessoas estão vivendo cada vez mais sozinhas.... mais tristes, mais neuróticas.... e tendo mais úlceras!!!
Queria um mundo diferente.... um mundo livre... onde as pessoas pudessem amar, serem amadas, tocar e serem tocadas sem achar que estão sendo colocadas dentro de celas, algemadas ou acorrentadas...
Outro dia, conversando com um amigo, ele me fala da namorada (pelo jeito agora noiva - que palavra esquisita e carregada de uma conotação subjugadora), e me diz que agora não vai mais a festas, por que está usando uma 'correntinha', e me mostra a aliança no dedo (outro gesto estranho pra mim, e cheio de um simbolismo que vai contra tudo em que acredito.... jamais colocarei algo do tipo em meu dedo!!!)
Se a pessoa se sente acorrentada por estar ligada a alguém que ela diz que ama, eu começo a duvidar desse sentimento.... E essas pessoas que supostamente se amam deixam de sair de casa, ir a festas, andar com amigos e se divertir... Por que? Isso é no mínimo imbecil.... pois é obvio que a relação vai sofrer danos terríveis com esse tipo de atitude.... Ninguém vive sozinho e uma pessoa só nunca será tão completa pra sanar todas as necessidades de outra.... se isolar é o começo para um fim trágico em qualquer relacionamento!!!
Mais uma vez afirmo: sou muito esquisita.... não consigo entender esse mundo maluco em que vivo!
Pra mim, o amor devia começar pela liberdade.... não gosto de ficar presa e muito menos de prender outros seres vivos.....
Aceitar as coisas como as coisas são, as pessoas como as pessoas são sem tentar muda-las, ou faze-las se parecer conosco.... Pra mim isso é o que importa num relacionamento, começando pela amizade.... e se gostar, indo para outros caminhos, mas nunca, jamais suprimindo a liberdade de ninguém....
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Eu não sou mulher!!!
Pois bem, estava eu em Pelotas Town, hoje por volta do meio dia, e eis que entro num boteco pra comprar água - o calor tava de lascar e eu com sede de camelo.
Vou até o balcão em busca de alguém que atenda minha necessidade pelo líquido sagrado e olho pra uma TV que estava ligada, onde passava uma reportagem de carnaval, já que estamos a festejar a quaresma!!!
Na tela, uma moça rebolativa se mexia mais que cobra mal matada. Portadora de um traseiro por demais avantajado, este mal coberto por um shortinho que mal e mal cobria as carnes da moça. E com o mexe e remexe todo, o dito cujo ia sendo engolido pelas polpudas nádegas enquanto a singela donzela fazia acelerados movimentos de vai e vem em direção ao chão!!!
Pedi minha água, mas não deixei de notar que no balcão se acotovelavam dois belos moçóilos, que olhavam fixamente para a tela da TV. Enquanto a moça que me atendia me entregava a garrafinha, ouvi um dos caras comentar com o amigo:
- Isso é que é mulher!!!
Peguei minha garrafinha e fui lá pagar o moço do caixa e saciar minha sede... mas não pude sair dali sem ficar matutando naquela frase tão pouco sútil, dita pelos belos rapazes no bar.
Caramba, pensei... Aquilo é que é mulher???
Tudo bem, sou bem chegada à algumas frescurites, tipo, unhas pintadas - mesmo quando estou em campo, e pra quem não sabe a autora deste blog trabalha como arquéologa - maquiagens (amo!!!), saias, vestidinhos, saltos altos e todas as coisinhas que os homens gostam de dizer que é coisa de mulherzinha... Sim, sim... sou uma arqueólogia meio patricinha...
Mas não sou mulher!!!!
Detesto acordar cedo e tenho um humor pouco interessante pela manhã, mas se precisar salto da cama as 5h da madrugada para prospectar, escavar, limpar terreno do sítio com enxada, e todas as tarefas que envolvem minhas atividades profissionais, sem reclamar (muito) e ainda faço piada o dia todo pra descontrair, e a noite visto glamourosamente meus vestidinhos e me ponho no salto pra festear com os amigos...
Mas, não sou mulher!!!!
Adoro conversar sobre política, economia do país, música, cinema e tantas outras coisas... Curto encontrar quem discuta comigo sobre aquele cartunista italiano, que se inspirou nele mesmo pra compor um personagem fantástico... e como o traço daquele desenhista alemão é perfeito e retrata o submundo de Berlin de uma forma chocante... e nossa, e como os poemas daquele poeta uruguaio, que infelizmente faleceu ano passado, são lindos e tocantes... que alma tinha aquele homem!!!
Mas eu não sou mulher!!!
Cumpro minhas tarefas, trabalho com competência, faço minha maquiagem em minutos - já deixei algumas amigas espantadas com a prática e a rapidez com que passo delineador nos olhos. Acredito que batom e delineador preto são itens indispensáveis na minha vida...
Mas não sou mulher!!!
Mato baratas, faço encamento hidráulico, conserto janelas e utensílios em casa, limpo a caixa de gordura quando necessário.... Tudo isso, sem descer do salto, e com muita feminilidade...
Mas, não sou mulher!!!!
Acredito que posso cuidar do meu corpo e da minha alma, juntos... Não quero ficar decrépita e desmanzelada... me amo e por isso cuido bem de mim, uso cremes pra prevenir rugas, pinto cabelo, faço ginástica.... pois quero me sentir bem, mas não quero virar um robô de plástico. Me choca ver pessoas que transformam-se em bonecas!!! Bundas grandes, seios siliconados, cabelos alisados a ferro... Um envólucro para um cérebro de ervilha... Uma embalagem bonita que envolve uma ervilha rugosa e amarela (quem lembra das aulas de genética e as tais ervilhas rugosas e lisas; amarelas ou verdes???). O que vai acontecer com a ervilha quando a embalagem se rasgar, pois embalagens não são duráveis?
Prefiro não ser 'mulher', não ser qualquer 'mulher'.
Prefiro saber que venho fazendo jus ao empenho da espécie humana no processo evolutivo, que depois de aderir ao bipedismo, conseguiu aumentar o volume de nossa massa encefálica, a ponto de fazer crescer nossa caixa craniana, o que levou nossos filhos a nascerem prematuramente, embora junto a isso tenha-se dado inicio aos vários processos culturais que vêm a ser o princípio da diversidade humana no mundo.
Essa massa encefálica que é capaz de raciocinar, criar, inventar, produzir, manufaturar... é o que nos faz diferentes de nossos primos símios... pois somos provenientes do mesmo tronco evolutivo. Se tomamos o mundo em nossas mãos e hoje nos consideramos os seres vivos dominantes no planeta é porque sabemos usar a massa encefálica - inclusive para dominar nossa própria espécie, infelizmente. Sejamos Homo sapiens sp... sejamos críticos... sejamos inteligentes!!!
Eu não sou mulher!!!
Eu descobri que felizmente sou um espécime raro do Homo sapiens sapiens, do gênero feminino!!!!
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Sonhos de liberdade... sonhos de solidão...
Pode parecer estranho, mas quanto mais o tempo passa, mais me sinto como a Agne, a personagem que deu origem ao nome deste blog. Quando estou cercada de gente, quero estar só. Quando estou só, sinto falta de gente....
Ó mente confusa a minha!!!! Queria muito uma flor de miosótis nestas horas... olhar por infinito azul... olhar, olhar... e nunca mais voltar de lá.....
Tenho pensado, nestes dias, em como minha vida está precisando de um 'up'... não estou satisfeita - tá, sei que sou a criatura mais chata do planeta, e é dificil que eu esteja satisfeita... tô sempre buscando algo... que as vezes nem sei o que é, mas busco algo..... nunca paro... nunca consigo parar num lugar só, fazer uma única coisa, pensar uma única coisa... Talvez tenha uma mente inquieta demais!!!
Mas, em épocas festivas, como carnaval, natal, ano novo... essas coisas que as pessoas normais curtem e onde pessoas normais se divertem, me deixam deprimida. Não consigo achar graça nisto tudo, nos sorrisos, nos gestos exagerados de alegria, naquela euforia toda....acho tão patético...(talvez eu é que seja patética, pois não consigo me divertir como os outros e acho chato)
Gosto de fugir pro mato nessas épocas, ficar longe de gente, do barulho, de tudo... e ficar sozinha comigo mesma e o som de uma cachoeira derramando água....
É...não sou afeita a muitos calores... não gosto muito de gente...embora as vezes precise de um abraço... mas não digo isso pra ninguém nem sob tortura!!!!!!!!!!!!!!!
Minha liberdade requer solidão. Só me sinto realmente livre quando estou sozinha, longe do mundo....
Caramba eu sou muito esquisita!!!!!!
Meu futuro, creio, será numa cabana, numa praia deserta, com meus cds, meus gatos e meus livros...
Isso é tudo ou encontro por aí uma flor de miosótis e piro nela até o fim dos meus dias.
domingo, 15 de janeiro de 2012
E eis que me afasto do porto.... e vejo um mar...um mar com novos horizontes
Acho que estou realmente precisando desabafar.... fazia horas que o pobre blog andava as traças, sem postagens nem atenção de minha parte. Ele, coitado, que foi criado pra me dar alento nessa ardua tarefa de escrever!!!!
Buenas, de volta a ele, o blog, mas cada vez mais afastada da história... não digo da História em si, mas da disciplina história. Sinto que meu trabalho, meus anseios, me levam pra novos horizontes... outros mares a serem navegados....
Na realidade, nunca me senti uma historiadora de verdade, sempre flertei com outas áreas da ciência desde meu ingresso no curso de história, lá pelos idos de 1997, na UFRGS. Quase me mudei pra biologia, e só não o fiz por causa do namorado.... (essas coisas do coração que levam a gente mais do que são levadas pela gente né...)
Não me arrependo, gostei do curso, dos colegas, da história... mas, mesmo lá naqueles anos... minha história era arqueologia, não era história propriamente dita... Nunca quis ser professora, ou estar numa sala de aula de uma escola... queria a pesquisa, queria o campo, e queria o embate....
Quando descobri o que podiamos fazer no âmbito da consultoria técnica, me apaixonei!!!! Era isso!!! Era ali que eu gostava de atuar!!! Na área de arqueologia, ou junto as comunidades, principalmente nas comunidades indígenas... amava ter de fazer laudos técnicos, ter de ir a campo, fazer as entrevistas, as etnografias, e finalmente ir ao embate em defesa dessas comunidades e do patrimônio arqueológico...
Descobri aos poucos que o que eu amava estava ligado a construção de políticas públicas, a defesa dos direitos desses povos e do nosso patrimônio material e imaterial....
Não sou boa professora. Não me sinto a vontade numa sala de aula com crianças esperando de mim o que não tenho pra dar... Mas, me sinto plenamente feliz e a vontade no campo... e também na defesa pública, nos fóruns e Ministérios Públicos, onde posso realmente falar do que entendo e do que amo fazer.....
É... mas minha tese é na História.... porém cada vez mais vejo nela tudo, menos história!!!
Estou a trabalhar com políticas públicas, documentos contemporâneos escritos pelas comunidades indígenas, legislação ambiental e direito internacional!!!! Cadê a história? Não sei!!!
Talvez a antropologia possa me dar um alento, as pinceladas de arqueologia que permeiam meus argumentos, mas história!!!! Não há. Não estou conseguindo colocar a bom termo argumentos históricos plausíveis, pois não é de meu interesse.
O capítulo em que deveria contextualizar a história dos Guarani na região da Serra do Tabuleiro está recheada de minhas experiências etnográficas, de documentos provenientes de estudos de impacto ambiental e coisas do tipo....
Bem, argumento que isso também é história!!! Fazemos uma história do tempo presente aqui.... mas...
Enfim.... como desabafo.... já que escrevo sozinha, pois meu (des)orientador não existe...vou continuar neste caminho... é o que sei fazer, é o que gosto de fazer..... só acho que estou na instituição errada e no curso errado.... então veremos....
A vida é mesmo assim...
sábado, 14 de janeiro de 2012
As voltas com a 'Maledeta'....
Incrível como é possivel um assunto que tanto me agrada me dar tanta dor de cabeça. Adoro o que faço, adoro o tema em que eu trabalho, e se pudesse estaria em campo a vida inteira, junto dos Guarani.... Mas, agora, neste momento fatídico em que tenho de literalmente 'parir' a tese, me sinto esgotada e enjoada... Não tenho vontade alguma de escrever...
Sei que não é o tema, nem o trabalho de campo, nem tampouco a causa - que por esta sou capaz de enfrentar mil batalhões - mas sim a pressão e o desassosego de estar numa instituição em que meu trabalho não tem valor... Meu orientador diz não entender o que faço - e isso é um sério problema... - a instituição apenas quer algo pronto pra contabilizar em seu curriculo.... e eu me sinto sozinha!!!
Sinto não ter quem realmente compartilhe dos meus anseios, das minhas vontades, do que realmente quero dizer e fazer com esse trabalho, com toda essa pesquisa e com as análises e possibilidades que ela poderia trazer.
Não queria fazer apenas um trabalho para seguir criando pó e teias de aranha numa biblioteca acadêmica, queria algo que pudese fazer sentido e ter uso prático na causa das demandas indígenas sobre a demarcação de suas áreas territoriais... Mas, a academia espera de mim apenas mais do mesmo... e isso é tão frustrante!!!
Mas, desde minhas crises de choro, minha vontade de sumir ou desistir... eis-me aqui, escrevendo a 'maledeta'. Esse é o nome dado a porcaria da minha tese... que será apenas mais um monte de papel pra criar pó e teias de aranha numa biblioteca...
Se consigo hoje escrever a dita cuja é porque cheguei a triste conclusão de que ela não será o trabalho da minha vida, nem terá a validade esperada... simplesmente me dará a porcaria de um titulo, que por mais que eu ignore, é o que as 'personas' da academia esperam de mim...
Me pergunto: o que é ser doutora? Que diferença fará isso na minha personalidade ou nas minhas ações?
Eu respondo: No que sou hoje, nenhuma diferença, continuarei sendo eu mesma, com meus sonhos e minhas lutas ....bebendo minha cerveja e meu vinho com meus amigos e falando palavrões....
Na minha carreira? Sim, se abrirão portas... infelizmente, porque na academia, apenas os 'escolhidos' tem voz... por menos que façam... é assim que é...
Não quero e não vou deixar isso tudo me contaminar, mas sei que depois de um maldito título me olharão diferente.... não pelo que sou ou pelo que faço, mas pelo próprio título em si... apenas um papel pra mim... para eles...a imortalidade!!!
Que fútil....
Depois que toda essa pressão acabar, e que eu finalmente puder pensar como um ser humano normal, quero rever tudo que escrevi na 'maledeta', e aí sim... esboçar aquilo que acredito ser importante para a causa... para que se possa realmente usar daquilo que escrevi em prol de questões palpáveis e reais.. não para academia que espera apenas mais um texto rebuscado e cheio de firúlas inúteis....
Ando precisando mais do que nunca encontrar aquela florista na esquina e dela comprar uma Flor de Miosótis, pra olhar e olhar a beleza azul da florzinha e ver se esqueço a feiura do mundo......apenas por instantes.....
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
A MEMÓRIA NA PONTA DA LÍNGUA
Texto de Fabiano Maisonnave, publicado na Folha de São Paulo (07/06/1998).
História da História Oral:
O uso de entrevistas como fonte histórica está longe de ser novidade. Heródoto, considerado o pai da história, já utilizava como fonte para seus escritos, na Grécia do 5° a. C. Mais recentemente, no século 19, Jules Michelet precisou de depoimentos para compor a sua 'História da Revolução Francesa'.
A história oral como é conhecida hoje começou a se desenvolver a partir da invenção do gravador, que facilitou a realização de entrevistas e possibilitou a criação de arquivos de fontes orais.
O primeiro centro de história oral foi fundado há 50 anos na Universidade Columbia, em Nova Yark. Hoje, o centro de Columbia é o maior do mundo, com 15 mil horas de entrevistas. Segundo Ronald Grele, diretor do centro, quase 2000 livros já foram escritos a partir da coleção de entrevistas.
No Brasil, apesar do crescimento, a história oral ainda tem pouca visibilidade, sobretudo por se tratar de um campo recente. Por aqui, pode-se dizer que a história oral teve três 'começos': dois na década de 70 e depois nos anos 90.
A primeira experiência dentro do país começou no CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação da História Contemporânea do Brasil), ligado à Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. Em 1975, o CPDOC criou, em pleno regime militar, o seu programa de história oral, nos moldes da Universidade Columbia.
Atualmente, o CPDOC tem um acervo de cerca de 3000 horas gravadas, constituído sobretudo de depoimentos de personalidades da elite política e militar brasileira. Na mesma época, uma outra história oral brasileira surgia, mas do lado de fora: trata-se do trabalho de Pedro Cavalcanti e Jovelino Ramos, que, no exterior, entrevistaram exilados do regime militar.
A explosão da história oral só veio a ocorrer nos anos 90, quando pesquisadores que trabalhavam com fontes orais passaram a organizar encontros e trocar experiências, culminando na criação, em 94, da Associação Brasileira de História Oral (ABHO).
A partir desse momento, predominaram trabalhos que visassem grupos sociais cuja história dificilmente seria escrita a não ser por meio de fontes orais: analfabetos, favelados, garimpeiros, índios.
'A grande força da história oral é que ela pode recuperar segmentos da sociedade que de outra forma se perderiam', diz Antônio Torres Montenegro, professor de história da Universidade Federal de Pernambuco e presidente da ABHO. Para ele, a história oral está mudando a noção de que a história começa com a escrita.
Apesar de não haver nas universidades brasileiras linhas de pesquisa em história oral, vários centros têm sido criados - casos do NEHO (Núcleo de Estudos em História Oral), da USP, e do Centro de Memória, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
A constituição de acervos de entrevistas também tem crescido. Em São Paulo, há arquivos desse tipo no Museu da Imagem e do Som, no Arquivo Histórico Judaico-Brasileiro e até na internet - no site Museu da Pessoa (www2.uol.com.br/mpessoa/).
Conceito gera confusão:
Pelo fato de ser ainda um campo recente, de ter se espalhado rapidamente e de agregar pessoas de diversas áreas - historiadores, sociólogos, educadores, linguistas - uma definição mais clara do que é historia oral ainda está longe de um consenso.
Mesmo Alessandro Portelli, maior referência sobre o assunto, tem dificuldades em dizer qual a melhor definição de história oral.
Para Meihy, autor de um manual de história oral, uma pesquisa nesses moldes passa pela existência de um projeto que comporte uma série de procedimentos metodológicos, envolvendo a edição da entrevista e uma conferência do texto final com o depoente.
É por isso, diz Meihy, que o livro 'O Presidente segundo o Sociólogo' que traz um entrevista com Fernando Henrique Cardoso, não pode ser considerado um livro de história oral. 'Ele se propõe apenas a ser um conjunto temático de reflexões que se organizam para mostrar um determinado posicionamento', diz Meihy.
Para o antropólogo Celso Castro, pesquisador do CPDOC e um dos entrevistadores do livro 'Ernesto Geisel', a história oral é apenas uma metodologia para a criação de uma nova fonte, que deve ser cruzada com outras fontes mais tradicionais.
Outra diferença, para o pesquisador, é que o entrevistado participa da elaboração do texto final, como aconteceu com Geisel, que revisou o depoimento duas vezes.
O que há de consenso na confusão teórica é que as fontes orais abriram possibilidades de estudar temas e grupos a partir de perspectivas diferentes. As entrevistas permitem, assim, que conhecimento histórico avance em espaços até então pouco ocupados.
Um dos casos mais interessantes é o de Mercedes Vilanova, da Universidade de Barcelona e presidente da Associação Internacional de História Oral. Ela pesquisou a participação eleitoral na Catalunha em 1934.
Até o seu estudo a historiografia afirmava que a derrota da coalizão de esquerda naquela região devia-se à abstenção dos anarquistas. A vitória ficou para a direita, cujo governo, que durou até 36, gerou um dos períodos mais difíceis da história espanhola, conhecido como 'biênio negro'.
Baseando-se em depoimentos, Vilanova revelou que houve outros motivos: a baixa participação dos analfabetos nas eleições e a coação de donos de fábrica para que os funcionários votassem.
'Quando, depois de anos trabalhando nos arquivos, decidi realizar o 'trabalho de campo', o mundo bibliográfico no qual até então estava me baseando virou papel morto', escreveu a oralista no livro 'Las Mayorías Invisibles', de 1996.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Povos Indígenas do Rio Grande do Sul: mais um capítulo de desrespeito aos seus direitos.

A Constituição Federal do Brasil, no caput do Artigo 231, diz: "São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens". Essa norma define não apenas um conjunto de direitos indígenas, como também a responsabilidade direta e intransferível da União no que tange à garantia da terra. Assim sendo, as possibilidades de intervenção ou ingerência de governos estaduais e municipais em procedimentos de demarcação de terras ficam restritas. Essa norma estabelece os limites e possibilidades de intervenção ou ingerência de governos estaduais e municipais no que tange à demarcação de terr as e às políticas a serem desenv olvidas para povos e comunidades indígenas em âmbito nacional.
Além da União, os demais entes da federação podem colaborar, em articulação com o Governo Federal e cumprindo todas as normas legais, nas ações e serviços a serem executados nas áreas de saúde, educação, atividades produtivas dentro das terras indígenas. É vedado, no entanto, que estados e municípios interfiram nos procedimentos de demarcação através da imposição de critérios e/ou instrumentos que não estejam previstos nas normas administrativas definidas pela União, e esta, por sua vez, precisa se organizar, se estruturar e garantir orçamento para implementar tais normas.
O debate que vem sendo proposto no Estado do Rio Grande do Sul sobre a temática indígena e a demarcação de terras (dos indígenas e quilombolas) assume um viés ideológico e utilitarista extremamente perigoso: em nome de um modelo de desenvolvimento baseado na ampliação da produção, especialmente a agrícola, se pretende restringir os direitos territoriais das comunidades tradicionais, condicionando a demarcação a um pressuposto de produtividade presente e futura. Em outras palavras, querem atrelar os direitos originários sobre as terras a um modelo de produção que se concretiza através da exploração máxima dos recursos, desrespeitando-se, de uma só vez, dois preceitos constitucionais: o reconhecimento aos índios de sua organização social, costumes, línguas, crenças e tra dições, e os direitos origin ários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, e o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nas terras por eles ocupadas (caput e § 2º do Art. 231). É a tentativa de colocar as terras indígenas à disposição do mercado explorador e predatório.
Para dar respaldo a esta proposição, adquirem visibilidade certos discursos que vitimizam os pequenos agricultores com a alegação de que sofrerão prejuízos com a demarcação das terras. Argumenta-se que, no caso do Rio Grande do Sul, os agricultores compraram as terras e possuem os títulos de propriedade sobre as áreas reivindicadas pelos "índios e quilombolas". E, além disso, se acrescenta ao argumento da propriedade o fato de que os agricultores produzem nas terras a serem demarcadas o alimento que a população consome.
Três questões importantes devem ser colocadas em relação a esta linha de argumentação: a primeira é que os povos indígenas não estão sendo considerados no debate como sujeitos de direitos. Ao contrário, são tratados como o problema ou o obstáculo a ser removido; a segunda é que, ao estabelecer a polarização agricultores versus indígenas/quilombolas, cria-se um conflito entre os pequenos quando, de fato, há grandes interesses implicados. E a terceira questão é que, para o modelo econômico, os indígenas e quilombolas são tidos como improdutivos e, portanto, não cabe a eles o direito à terra.
É com essa intenção que a CNA (Confederação Nacional da Agricultura), uma espécie de ONG do latifúndio e do agronegócio, promove a discussão em torno da questão indígena no Brasil. Ela promove um grande lobby no Congresso Nacional visando mudar o Artigo 231 da Constituição Federal e utiliza sua influência política e econômica para pressionar os governos nas esferas municipais, estaduais e federal. Para a CNA a legislação que protege os direitos dos povos indígenas e quilombolas se constitui em instrumento limitador da lucratividade daqueles setores que ela, de fato, representa. E, por sua vez, os latifundiários e as empresas produtoras de soja, milho, cana-de-açúcar, arroz e eucalipto nutrem grande expectativa em torno das pretensas mudanças na legislação indigenista, quilombola e ambiental, a partir desta ofensiva política e ideológica da CNA.
Não se trata, neste debate, como afirmam prefeitos, deputados, senadores, secretários de Estado e as matérias escritas ou televisivas da mídia, de um conflito entre "pequenos proprietários rurais", indígenas e quilombolas, e sim um conflito entre modelos de produção diferentes um que prima pelos direitos das pessoas e pelo meio ambiente e outro que propõe a máxima produção e a maior lucratividade. Vale ressaltar que a maioria dos países desenvolvidos, que experimentam hoje o amargo sabor da crise, já estabeleceu medidas para conter o ímpeto produtivista e apelam para formas menos nocivas de produzir e de consumir.
O conflito estabelecido no Rio Grande do Sul não decorre da legislação propriamente, e sim dos interesses sobre as terras e as formas de entender sua função social. Há um forte investimento discursivo no sentido de culpabilizar os povos indígenas e quilombolas, quando a solução depende exclusivamente da vontade política e de uma eficaz ação do governo para, de um lado, demarcar e fazer respeitar as terras tradicionais destes povos e comunidades e, de outro, buscar soluções concretas e plausíveis para os problemas dos agricultores que foram assentados em terras indígenas. Cabe, neste debate, bom senso, disposição política e, mais do que isso, destinação de recursos financeiros para pagamento das indenizações dos afetados e o cumprimento da legislação estadual que determina que o Estado deve indenizar as famílias assent adas em áreas demarcadas ou em demarcação.
Lamentavelmente, no Rio Grande do Sul, este tema vem sendo matizado por pressões políticas da CNA e pelo impulso da mídia. O governo estadual entrou no jogo de interesses e, em virtude disto, classifica os direitos indígenas como problemas. Volta-se contra a Constituição ao invés de agir através dela. As reuniões promovidas para debater e questionar os direitos indígenas e quilombolas sem ouvi-los atenta contra princípios elementares de democracia e afronta a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho).
Essa atitude de desconhecer ou ignorar as comunidades indígenas tem se constituído em prática corriqueira dos administradores do Estado. A realização da audiência pública promovida pela Comissão de Agricultura do Senado Federal, em 21 de outubro, na Assembleia Legislativa, foi uma das etapas dos "debates" com a exclusão das populações diretamente afetadas pelas propostas que se anunciam. Vale relembrar que neste evento reuniram-se centenas de agricultores e representantes do agronegócio e que os povos indígenas e comunidades quilombolas sequer foram convidados. Eles participaram por iniciativa própria e, ao se pronunciarem publicamente, foram veementemente vaiados.
No dia 27, seis dias depois, a Casa Civil do governo do Estado promoveu um encontro do Secretário de Desenvolvimento Rural, Ivar Pavan, e outros governistas para dialogar com agricultores e políticos do Rio Grande do Sul sobre as demarcações de terras. Mais uma vez, nenhuma liderança indígena foi convidada.
O fato mais revoltante, associado a esta última reunião, foi o anúncio de que o Governo Federal, através da Funai, e o governo do Estado firmaram um Termo de Cooperação com vistas a por fim aos problemas. Um dos itens deste termo é a suspensão de todas as demarcações de terras indígenas em processo no Estado. Ivar Pavan foi enfático ao dizer que não vão aceitar nenhuma demarcação de terra enquanto não forem atendidas as demandas dos agricultores. Informou ainda que o governador Tarso Genro exigiu do presidente da Funai a imediata paralisação de todas as demarcações de terras. Entende-se, assim, porque Tarso Genro, enquanto exerceu a função de ministro da Justiça, não demarcou nenhuma terra indígena no Rio Grande do Sul.
É importante salientar que essa proposta não passa de retórica, uma vez que não compete ao governo estadual requerer a suspensão de demarcações de terras, posto que, no item XIV do Artigo 22 da Constituição Federal se estabelece a competência privativa da União para legislar sobre as populações indígenas. Caso a Funai se submeta a pressões políticas estará agindo contra os interesses da União e poderá ser responsabilizada por não cumprir com as atribuições que lhe são imputadas e que definem, em grande medida, a sua função e a razão de sua existência.
É importante salientar que essa proposta não passa de retórica, uma vez que não compete ao governo estadual requerer a suspensão de demarcações de terras, posto que, no item XIV do Artigo 22 da Constituição Federal se estabelece a competência privativa da União para legislar sobre as populações indígenas. Caso a Funai se submeta a pressões políticas estará agindo contra os interesses da União e poderá ser responsabilizada por não cumprir com as atribuições que lhe são imputadas e que definem, em grande medida, a sua função e a razão de sua existência.
Outro exemplo que reafirma a postura intransigente do governo com relação aos povos indígenas vincula-se à criação de um Grupo de Trabalho, no âmbito da Casa Civil do Estado, para "Avaliação e formulação de alternativas para as áreas indígenas e o aperfeiçoamento das políticas públicas destinadas às comunidades indígenas no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul", sem a necessária presença ao menos de um representante indígena.
Os resultados deste grupo de trabalho foram apresentados através de um relatório que visa, entre outras coisas, enaltecer a gestão do ex-governador Olívio Dutra que ocorreu há 10 anos. O relatório omite as ações dos dois governos subsequentes; anuncia que a partir do próximo ano serão resolvidas as questões através da liberação de verbas financeiras, especialmente para a indenização das famílias não indígenas que vivem sobre terras demarcadas, e que serão investidos recursos públicos para acabar com o déficit habitacional nas áreas indígenas.
Se o governo do Estado assim procedesse, estaria apenas cumprindo uma obrigação legal que é indenizar famílias de agricultores que foram assentadas indevidamente nas terras indígenas (por culpa do Estado) e auxiliando o Governo Federal a melhorar as habitações indígenas.
Mas não é o que de fato vem ocorrendo. O relatório apresentado pelo GT da Casa Civil expressa, na página 11, o seguinte:
"De outra banda, ainda que se trate de matéria diversa àquela que exclusivamente compete à Casa Civil, registramos de forma consensuada com todas as secretarias e integrantes da base do governo, a permanente necessidade de reformatação legislativa do CEPI, bem como opinamos pela imediata substituição de sua coordenação, a qual vem reiteradamente articulando as comunidades indígenas em desfavor da institucionalidade, além de empreender conduta denuncista junto ao MPE, MPF e FUNAI abdicando de, efetivamente, buscar construir de forma coletiva as soluções que se impõem àquela coletividade".
"De outra banda, ainda que se trate de matéria diversa àquela que exclusivamente compete à Casa Civil, registramos de forma consensuada com todas as secretarias e integrantes da base do governo, a permanente necessidade de reformatação legislativa do CEPI, bem como opinamos pela imediata substituição de sua coordenação, a qual vem reiteradamente articulando as comunidades indígenas em desfavor da institucionalidade, além de empreender conduta denuncista junto ao MPE, MPF e FUNAI abdicando de, efetivamente, buscar construir de forma coletiva as soluções que se impõem àquela coletividade".
Sem nenhuma dúvida, este parágrafo visa cercear e impor limites à atuação do CEPI (Conselho Estadual dos Povos Indígenas). Este Conselho foi criado pelo governo do Estado e deveria se constituir num espaço de controle social a ser exercido pelas lideranças e representantes indígenas, e se constituir em fórum de discussão das políticas destinadas às populações indígenas, bem como para pensar e planejar as ações do Estado tendo em vista sua contribuição junto ao Governo Federal na execução das políticas públicas. Além disso, o CEPI deveria acompanhar e fiscalizar o Governo Federal no que se refere aos procedimentos de demarcação das terras, a sua proteção e fiscalização.
Alega-se no relatório da Casa Civil que o CEPI está empreendendo uma postura denuncista e faz um desfavor a institucionalidade. Lamentável que uma manifestação desta tenha origem em um grupo de trabalho constituído por servidores e assessores de um governo dito "democrático e popular". Lamentável que haja censura a um Conselho do Estado quando este cumpre com suas atribuições. É também lamentável que o relatório tenha sido acatado de forma imediata, sem nenhuma discussão ou debate com os demais conselheiros (17 indígenas Kaingang, 17 Guarani e um Charrua) quanto à substituição de sua coordenação. Vale ressaltar que a coordenação é composta por um representante Guarani, um Kaingang e uma secretária executiva, cargo e função designados pelo governo do Estado. A secretária executiva Sônia Lopes foi afastada do Cepi no dia 26 de outubro de 2011.
Santiago Franco, uma das lideranças do povo Guarani no Estado do Rio Grande do Sul, mesmo sem ter sido convidado para participar de reunião (27/10/2011) promovida pelo governo com os representantes dos agricultores e políticos, depois de ouvir os discursos contra os direitos indígenas, pediu permissão para falar e, com lamento, se pronunciou: "Se suspenderem as demarcações, que já têm processos muito demorados, qual será o futuro das comunidades indígenas? Vamos continuar por mais 100 anos em barracos de lonas, na beira das estradas? Essa atitude do governo em pedir a paralisação das demarcações vai afetar a nossa vida, vai matar mais o nosso povo".
É esta a solução que o governo do Estado do Rio Grande do Sul propõe para os problemas indígenas e quilombolas?
É esta a solução que o governo do Estado do Rio Grande do Sul propõe para os problemas indígenas e quilombolas?
Porto Alegre, RS, 2 de novembro de 2011.
Roberto Antonio Liebgott
Cimi Regional Sul - Equipe Porto Alegre
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Ficção Científica e Ciência Fictícia

Compartilho aqui um texto do Eduardo Viveiros de Castro, publicado no Jornal do Brasil, lá pelos idos da década de 1990 (infelizmente na cópia xeros que tenho do artigo não tem a data correta), que trata de uma crítica à tese de Maria da Conceição Beltrão, que afirma uma antiguidade continuada da cultura Tukano na Chapada Diamantina, referenciada pelas pesquisas que a autora realizou sobre arte rupestre no referido local. Viveiros de Castro aponta para a confusão causada pela tal tese em função de afirmar tal coisa, já que isso não procede de forma alguma, sendo que as etnias contemporâneas dos grupos ameríndios não correspondem jamais à grupos etnicos tão recuados no passado, já que a autora se refere a uma datação de 40 mil anos para a existencia desses grupos na Chapada Diamantina, bem como recua a antiguidade do homem na América para 300 mil anos, o que contraria inclusive as datas que se tem para o surgimento do homem na Africa, apontando, dessa forma, para uma autoctonia americana do Homo Sapiens. Não li a tese da referida arqueóloga, mas confesso que aguçou minha curiosidade! Queria saber como e em que ela se baseou para afirmar tais coisas?
O risco de fazer analogias entre populações etnicas atuais e objetos de um passado remoto é sempre grande e perigoso, fazer analogias etnicas dentro de uma data tão recuada é praticamente um suicídio... É impossivel fazer tais afirmações, basta conhecer as diversas readaptações, sincretismos e transformações etnicas por que passaram os grupos ameríndios, assim como qualquer grupo social, para saber que não se pode sequer propor tal índice de continuidade etnica.
Bom, vou transcrever aqui a crítica de Viveiros de Castro, antropólogo do Museu Nacional:
O povo Tukano, que vive hoje no noroeste amazônico, dominava todo o Brasil há 40 mil anos. Ele foi o autor das pinturas encontradas na Chapada Diamantina, no sertão da Bahia, onde se acham vestígios de uma legendária cidade perdida. Além disso - mudando um pouco de assunto e de época - , os primeiros seres humanos já estavam na América há pelo menos 300 mil anos.
Tudo isso pôde ser lido em uma reportagem do Caderno B de 12 de março, sobre as pesquisas da arqueóloga Maria da Conceição Beltrão, do Museu Nacional (UFRJ). Como antropólogo e como professor do mesmo Museu Nacional, acho necessário dizer algo sobre as proposições acima, em atenção aos leitores deste jornal e em respeito à instituição e à comunidade científica de que sou membro.
A tese de que os Tukano teriam vivido na Bahia há 40 mil anos, e ainda por cima 'dominado o país', é pior que inverossímel. A idéia de que se possa determinar qualquer continuidade cultural ou linguística significativa entre uma sociedade atual e uma população que teria vivido há 40 mil anos é absurda , nas presentes condições do conhecimento científico. M. C. Beltrão parece ter chegado a esta idéia mediante uma interpretação imaginosa das pinturas rupestres baianas à luz de mitos Tukano, e talvez também por enxergar semelhanças entre tais pinturas e os petroglifos presentes no territorio Tukano atual.
A atribuição de conteúdos históricos objetivos a mitos é empresa espinhosa, exigindo um conhecimento profundo da cultura e da ecologia das sociedades em estudo; muitas tentativas análogas naufragaram na fantasia delirante. A profa. Beltrão, ao que me consta, nunca fez pesquisas entre os Tukano. Os mitos Tukano a que a professora alude, ademais, remetem a estruturas pan-amazônicas. A identificação étnica de motivos míticos disseminados na vasta é vária Amazônia é outra empresa de rendimento duvidoso, sobretudo se conduzida por amadores. Quanto aos petroglifos da área Tukano (vale do Alto Rio Negro), eles não foram feitos por este povo. Os Tukano são o último estrato de povoamento indígena da região, tendo sido precedidos por grupos de língua aruaque (que alí ainda vivem) e maku (idem). Os petroglifos se devem possivelmente aos aruaques, ou a populações anteriores. A mitologia Tukano fala de uma migração vinda do leste, do baixo curso do Amazonas, mas não me recordo de nenhuma referência na literatura a uma improbabilíssima migração anterior proveniente do sertão baiano. A distribuição geográfica das línguas da família Tukano bem como certas tradições orais sugerem, ao contrário, uma situação mais antiga a oeste do território atual, na região do Napo e Putumayo (Peru e Colômbia). Muitos traços da organização social e ritual Tukano foram assimilados das sociedades aruaques do Rio Negro. Utilizá-los, e à mitologia, para inferir origens e migrações é mais complicado do que parece supor a Profa. Beltrão.
Ao contrário do que diz a matéria, os Tukano não são hoje um bando de 'remanescentes que vivem aculturados no Pico da Neblina'. Sua população é de 26423 pessoas, segundo um censo recente. Deste total, 8691 vivem no Brasil (o restante na Colômbia), o que faz deste povo indígena o sexto maior do país. Quanto a viverem 'no Pico da Neblina', esta é uma informação falsa: o dito pico fica em área tradicional Baré (povo aruaque), hoje habitada a duras penas pelos Yanomamis. Quanto a estarem os Tukano 'aculturados', este é um juízo de valor antropológico nulo.
Sobre os 40 mil anos, e os 300 mil... Discutir estas datas é tarefa para arqueólogos e paleoantropólogos; sou especialista em sociedades pós colombianas. Alguns cientistas têm proposto datações anteriores ao limite tradicional de 12 mil anos para o povoamento das Américas: no momento, há uma controvérsia respeitável em torno de uma data de 50 mil anos para um sítio no sudeste do Piauí. Os 40 mil anos de Beltrão estariam, assim, dentro dos limites do discutível (no bom sentido); há que ver, é claro, como tal datação foi obtida, e repito que remeter qualquer cultura atual a esta época é pura fantasia. Se ainda não se conseguiu identificar etnicamente o povo que deixou o complexo arqueológico de Marajó, e que floresceu entre os anos 400 e 1300 de nossa era, imagine-se uma população que teria vivido há 40 mil anos.
Já os 300 mil anos de presença do homem nas Américas, bem, penso que nenhum arqueólogo competente e honesto (à parte, é claro, a Profa. Beltrão) se disporia a levar esta data a sério. A reportagem diz que tal tese 'causou indignação' na comunidade científica, 'especialmente a americana'. Não sei se indignação é a palavra mais adequada. E indignar os arqueólogos americanos não é garantia automática de verdade científica, como parece pensar a repórter. Surpreende-me ainda que pesquisadores que trabalham neste mesmo campo (nas Universidades Federais de Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul, na USP e na própria UFRJ) não tenham sido contatados pela reportagem do JB para opinar sobre a revolucionária data de 300 mil anos, que atribui maior antiguidade ao Homo Sapiens na América que na África, berço de nossa espécie - estariamos falando de autoctonia americana, tese ainda mais fantástica? Com a palavra os especialistas, que me parece já deveriam ter se pronunciado há mais tempo, pois esta não é a primeira ocasião emq ue a imprensa diária procura a Profa. Beltrão (ou vice-versa) para divulgar teorias de tal calibre. Aliás, o que pensam a Sociedade de Arqueologia Brasileira e a Associação Brasileira de Antropologia a respeito?
Quanto ao resto da reportagem: a 'cidade perdida', o coronel Fawcett e os índios 'kui-kuros' (ou melhor, Kuikúru, que na verdade são os Kalapalo - mas essa é uma outra história), bem, aqui passamos felizmente da ciência fictícia para a ficção científica. Saudades de Connan Doyle, e de Ridder Haggard (não 'Raidder-Haggard', por favor!)... Desejo todo o sucesso ao livro de arte e ao tratamento romanceado que a Profa. Beltrão e seu assistente pretendem dedicar à geologia da Chapada Diamantina.
O risco de fazer analogias entre populações etnicas atuais e objetos de um passado remoto é sempre grande e perigoso, fazer analogias etnicas dentro de uma data tão recuada é praticamente um suicídio... É impossivel fazer tais afirmações, basta conhecer as diversas readaptações, sincretismos e transformações etnicas por que passaram os grupos ameríndios, assim como qualquer grupo social, para saber que não se pode sequer propor tal índice de continuidade etnica.
Bom, vou transcrever aqui a crítica de Viveiros de Castro, antropólogo do Museu Nacional:
O povo Tukano, que vive hoje no noroeste amazônico, dominava todo o Brasil há 40 mil anos. Ele foi o autor das pinturas encontradas na Chapada Diamantina, no sertão da Bahia, onde se acham vestígios de uma legendária cidade perdida. Além disso - mudando um pouco de assunto e de época - , os primeiros seres humanos já estavam na América há pelo menos 300 mil anos.
Tudo isso pôde ser lido em uma reportagem do Caderno B de 12 de março, sobre as pesquisas da arqueóloga Maria da Conceição Beltrão, do Museu Nacional (UFRJ). Como antropólogo e como professor do mesmo Museu Nacional, acho necessário dizer algo sobre as proposições acima, em atenção aos leitores deste jornal e em respeito à instituição e à comunidade científica de que sou membro.
A tese de que os Tukano teriam vivido na Bahia há 40 mil anos, e ainda por cima 'dominado o país', é pior que inverossímel. A idéia de que se possa determinar qualquer continuidade cultural ou linguística significativa entre uma sociedade atual e uma população que teria vivido há 40 mil anos é absurda , nas presentes condições do conhecimento científico. M. C. Beltrão parece ter chegado a esta idéia mediante uma interpretação imaginosa das pinturas rupestres baianas à luz de mitos Tukano, e talvez também por enxergar semelhanças entre tais pinturas e os petroglifos presentes no territorio Tukano atual.
A atribuição de conteúdos históricos objetivos a mitos é empresa espinhosa, exigindo um conhecimento profundo da cultura e da ecologia das sociedades em estudo; muitas tentativas análogas naufragaram na fantasia delirante. A profa. Beltrão, ao que me consta, nunca fez pesquisas entre os Tukano. Os mitos Tukano a que a professora alude, ademais, remetem a estruturas pan-amazônicas. A identificação étnica de motivos míticos disseminados na vasta é vária Amazônia é outra empresa de rendimento duvidoso, sobretudo se conduzida por amadores. Quanto aos petroglifos da área Tukano (vale do Alto Rio Negro), eles não foram feitos por este povo. Os Tukano são o último estrato de povoamento indígena da região, tendo sido precedidos por grupos de língua aruaque (que alí ainda vivem) e maku (idem). Os petroglifos se devem possivelmente aos aruaques, ou a populações anteriores. A mitologia Tukano fala de uma migração vinda do leste, do baixo curso do Amazonas, mas não me recordo de nenhuma referência na literatura a uma improbabilíssima migração anterior proveniente do sertão baiano. A distribuição geográfica das línguas da família Tukano bem como certas tradições orais sugerem, ao contrário, uma situação mais antiga a oeste do território atual, na região do Napo e Putumayo (Peru e Colômbia). Muitos traços da organização social e ritual Tukano foram assimilados das sociedades aruaques do Rio Negro. Utilizá-los, e à mitologia, para inferir origens e migrações é mais complicado do que parece supor a Profa. Beltrão.
Ao contrário do que diz a matéria, os Tukano não são hoje um bando de 'remanescentes que vivem aculturados no Pico da Neblina'. Sua população é de 26423 pessoas, segundo um censo recente. Deste total, 8691 vivem no Brasil (o restante na Colômbia), o que faz deste povo indígena o sexto maior do país. Quanto a viverem 'no Pico da Neblina', esta é uma informação falsa: o dito pico fica em área tradicional Baré (povo aruaque), hoje habitada a duras penas pelos Yanomamis. Quanto a estarem os Tukano 'aculturados', este é um juízo de valor antropológico nulo.
Sobre os 40 mil anos, e os 300 mil... Discutir estas datas é tarefa para arqueólogos e paleoantropólogos; sou especialista em sociedades pós colombianas. Alguns cientistas têm proposto datações anteriores ao limite tradicional de 12 mil anos para o povoamento das Américas: no momento, há uma controvérsia respeitável em torno de uma data de 50 mil anos para um sítio no sudeste do Piauí. Os 40 mil anos de Beltrão estariam, assim, dentro dos limites do discutível (no bom sentido); há que ver, é claro, como tal datação foi obtida, e repito que remeter qualquer cultura atual a esta época é pura fantasia. Se ainda não se conseguiu identificar etnicamente o povo que deixou o complexo arqueológico de Marajó, e que floresceu entre os anos 400 e 1300 de nossa era, imagine-se uma população que teria vivido há 40 mil anos.
Já os 300 mil anos de presença do homem nas Américas, bem, penso que nenhum arqueólogo competente e honesto (à parte, é claro, a Profa. Beltrão) se disporia a levar esta data a sério. A reportagem diz que tal tese 'causou indignação' na comunidade científica, 'especialmente a americana'. Não sei se indignação é a palavra mais adequada. E indignar os arqueólogos americanos não é garantia automática de verdade científica, como parece pensar a repórter. Surpreende-me ainda que pesquisadores que trabalham neste mesmo campo (nas Universidades Federais de Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul, na USP e na própria UFRJ) não tenham sido contatados pela reportagem do JB para opinar sobre a revolucionária data de 300 mil anos, que atribui maior antiguidade ao Homo Sapiens na América que na África, berço de nossa espécie - estariamos falando de autoctonia americana, tese ainda mais fantástica? Com a palavra os especialistas, que me parece já deveriam ter se pronunciado há mais tempo, pois esta não é a primeira ocasião emq ue a imprensa diária procura a Profa. Beltrão (ou vice-versa) para divulgar teorias de tal calibre. Aliás, o que pensam a Sociedade de Arqueologia Brasileira e a Associação Brasileira de Antropologia a respeito?
Quanto ao resto da reportagem: a 'cidade perdida', o coronel Fawcett e os índios 'kui-kuros' (ou melhor, Kuikúru, que na verdade são os Kalapalo - mas essa é uma outra história), bem, aqui passamos felizmente da ciência fictícia para a ficção científica. Saudades de Connan Doyle, e de Ridder Haggard (não 'Raidder-Haggard', por favor!)... Desejo todo o sucesso ao livro de arte e ao tratamento romanceado que a Profa. Beltrão e seu assistente pretendem dedicar à geologia da Chapada Diamantina.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Índios, no Plural

Compartilho um texto de Júlio Cezar Mellati, já antiguinho, mas ainda tão significativo.. Esse texto foi publicado primeiramente no Correio do Livro, da Editora da UNB
Há um quarto de século, quando escrevi Índios do Brasil, tinha, entre os vários objetivos desse livro de divulgação, a intenção de mostrar ao público como são diferentes entre si as distintas culturas indígenas. Talvez, por causa de seu plano de apresentação por tópicos (economia, parentesco, política, religião, arte, etc.), aquele propósito não tenha sido exposto de modo tão explícito quanto almejado.
Dada a boa recepção que teve o livro - está na sétima edição brasileira, além de contar com outra, mexicana - senti-me estimulado a trabalhar no tema da diversidade cultural e passei a desenvolver um programa pessoal de atividades que ne possibilitassem uma certa constância no tratamento do assunto.
Na tentativa de ganhar o estímulo de outras pessoas, optei por oferecer um curso de extensão, que não só me poria em contato direto com um público diferente (eu esperava alcançar os professores de história, geografia, educação moral e cívica etc. do primeiro e segundo graus), distinto dos alunos universitários regulares, mas também me obrigaria ao preparo de apostilas, cujo posterior aprimoramento poderia resultar num novo livro. Ofereci esse curso duas vezes, uma na Casa da Cultura da América Latina, da Universidade de Brasília, em 1992, e outra no Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás em 1993.
O que eu não esperava era que aqueles que procuraram o curso, em ambas oportunidades, fossem em sua maioria alunos universitários e, mais ainda, da área de Antropologia e afins. Mas consegui meu objetivo de preparar apostilas, num total de 230 páginas, que incluem um texto ainda precário, mapas, tabelas e bibliografia, que estão à espera de novas apresentações do curso que estimulem seu aprimoramento.
Como abordar a diversidade cultural? Em três dezenas de horas, que é o tempo mínimo de um curso de extensão, não é possível tratar, uma a uma, cada cultura indígena nos seus pormenores e peculiaridades. é preciso agrupá-las de alguma forma, mas sem se chegar ao extremo oposto, e justamente o que se quer evitar, de considerar todas num bloco.
Línguas aparentadas, semelhanças de costumes e instituições, adaptação a um mesmo ambiente, relações entre si e com populações integradas em estados de origem européia, serviram-me de critérios para distribuir as sociedades indígenas em um certo número de unidades distintas. Na verdade, utilizei-me dos mesmos critérios de Eduardo Galvão - que foi, diga-se de passagem, o primeiro professor de Antropologia da UnB - quando apresentou suas áreas culturais indígenas do Brasil na IV Reunião Brasileira de Antropologia, em Curitiba, em 1959. Imitei até mesmo sua resolução de se ater a um período histórico limitado, no seu caso a primeira metade do século XX e no meu, a segunda.
Mas há também pelo menos duas diferenças entre o modo de Galvão considerar as áreas e o meu. Uma delas, a julgar pela enumeração que faz dos itens culturais característicos de cada área e pela preocupação em apontar as exceções, é que ele parecia acreditar na possibilidade de se chegar a áreas culturalmente homogêneas. De minha parte, penso que as culturas não podem, como Galvão dá a impressão de fazer, ser dissolvidas numa unidade mais ampla, a área. Além disso, os critérios escolhidos correspondem como que a forças que não atuam todas na mesma direção, deixando o pesquisador que elabora uma divisão em áreas diante de pelo menos duas alternativas: ou agrupa na mesma área as culturas que se assemelham entre si, ou reúne as sociedades que convivem entre si.
Apenas um exemplo para tornar mais claro o que quero dizer: os Bororo de Mato Grosso e os Canela do Maranhão apresentam uma série de semelhanças - falam línguas do mesmo tronco macro-jê, vivem adaptados ao cerrado, têm aldeias circulares, deslocamento do marido para a casa materna da esposa, divisão em metades, etc. - que permitem incluí-los na mesma área cultural. Entretanto, os Bororo e os Canela não se encontram no seu dia a dia, uma vez que estão separados por aproximadamente 1200 km de distância.
No entanto, os Canela vivem próximo dos Guajajara, que encontram com frequência, com os quais já tiveram relações de hostilidade, hoje amistosas. Não obstante, os Guajajara falam um língua do tronco tupi, vivem na floresta, não têm aldeias circulares e nem divisão em metades, e a escolha de residência pelo novo marido depende de um jogo de forças entre seu pai e seu sogro. Se Canelas e Guajajaras não se parecem, em compensação se articulam. Aliás, convém ter em conta que, em muitos casos, sociedades indígenas se articulam, ajustam-se em simbioses, justamente porque são diferentes. São também conhecidos aqueles casos em que algumas sociedades deixam de desenvolver certas técnicas justamente para poder, através de trocas, obter os artefatos ou serviços produzidos com ajuda delas por seus vizinhos, estabelecendo assim uma articulação com eles.
Apesar disso, na divisão em áreas que apresento a seguir, incluí os Canela na mesma área dos Bororo (Tocantins - Xingu), deixando os Guajajara em outra (Pindaré - Xingu). Trata-se de uma escolha arbitrária. Na verdade, preferi pôr os Canela junto com os Bororo porque nesta segunda metade do século XX tanto uns quanto os outros têm feito parte de um conjunto de sociedades indígenas, ditas do Brasil Central, sobre as quais se tem desenvolvido mais um projeto comparativo. Ou seja, os etnólogos se acostumaram a vê-las juntas. Uma vez que uma boa dose de arbítrio fica nas mãos do etnólogo que propõe a divisão, preferi chamar essas áreas de etnográficas, ao invés de culturais.
A outra diferença entre a divisão de Galvão e a que aqui apresento é que a minha não se limita ao Brasil. Levando em conta que várias sociedades indígenas vivem em ambos os lados da fronteira entre o Brasil e outros países, resolvi estender as áreas etnográficas para toda a América do Sul, uma opção que contribui também para romper com a tendência dos pesquisadores brasileiros de limitarem seus interesses de pesquisa ao âmbito do território do país. Se não estendi a divisão para todas as três Américas, foi por receio de perder o estímulo de continuar perante tanto trabalho.
Ao examinar o mapa em anexo, o leitor notará que algumas das áreas sugeridas por mim são exatamente as mesmas propostas por Galvão; outras são desmembramentos delas, e ainda outras são expansões das áreas de Galvão para além da fronteira brasileira. Reconheço que nada há nelas que se pretenda definitivo. Embora haja razões para assim traça-las, há igualmente outras razões para desenhá-las de outra maneira.
Há um quarto de século, quando escrevi Índios do Brasil, tinha, entre os vários objetivos desse livro de divulgação, a intenção de mostrar ao público como são diferentes entre si as distintas culturas indígenas. Talvez, por causa de seu plano de apresentação por tópicos (economia, parentesco, política, religião, arte, etc.), aquele propósito não tenha sido exposto de modo tão explícito quanto almejado.
Dada a boa recepção que teve o livro - está na sétima edição brasileira, além de contar com outra, mexicana - senti-me estimulado a trabalhar no tema da diversidade cultural e passei a desenvolver um programa pessoal de atividades que ne possibilitassem uma certa constância no tratamento do assunto.
Na tentativa de ganhar o estímulo de outras pessoas, optei por oferecer um curso de extensão, que não só me poria em contato direto com um público diferente (eu esperava alcançar os professores de história, geografia, educação moral e cívica etc. do primeiro e segundo graus), distinto dos alunos universitários regulares, mas também me obrigaria ao preparo de apostilas, cujo posterior aprimoramento poderia resultar num novo livro. Ofereci esse curso duas vezes, uma na Casa da Cultura da América Latina, da Universidade de Brasília, em 1992, e outra no Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás em 1993.
O que eu não esperava era que aqueles que procuraram o curso, em ambas oportunidades, fossem em sua maioria alunos universitários e, mais ainda, da área de Antropologia e afins. Mas consegui meu objetivo de preparar apostilas, num total de 230 páginas, que incluem um texto ainda precário, mapas, tabelas e bibliografia, que estão à espera de novas apresentações do curso que estimulem seu aprimoramento.
Como abordar a diversidade cultural? Em três dezenas de horas, que é o tempo mínimo de um curso de extensão, não é possível tratar, uma a uma, cada cultura indígena nos seus pormenores e peculiaridades. é preciso agrupá-las de alguma forma, mas sem se chegar ao extremo oposto, e justamente o que se quer evitar, de considerar todas num bloco.
Línguas aparentadas, semelhanças de costumes e instituições, adaptação a um mesmo ambiente, relações entre si e com populações integradas em estados de origem européia, serviram-me de critérios para distribuir as sociedades indígenas em um certo número de unidades distintas. Na verdade, utilizei-me dos mesmos critérios de Eduardo Galvão - que foi, diga-se de passagem, o primeiro professor de Antropologia da UnB - quando apresentou suas áreas culturais indígenas do Brasil na IV Reunião Brasileira de Antropologia, em Curitiba, em 1959. Imitei até mesmo sua resolução de se ater a um período histórico limitado, no seu caso a primeira metade do século XX e no meu, a segunda.
Mas há também pelo menos duas diferenças entre o modo de Galvão considerar as áreas e o meu. Uma delas, a julgar pela enumeração que faz dos itens culturais característicos de cada área e pela preocupação em apontar as exceções, é que ele parecia acreditar na possibilidade de se chegar a áreas culturalmente homogêneas. De minha parte, penso que as culturas não podem, como Galvão dá a impressão de fazer, ser dissolvidas numa unidade mais ampla, a área. Além disso, os critérios escolhidos correspondem como que a forças que não atuam todas na mesma direção, deixando o pesquisador que elabora uma divisão em áreas diante de pelo menos duas alternativas: ou agrupa na mesma área as culturas que se assemelham entre si, ou reúne as sociedades que convivem entre si.
Apenas um exemplo para tornar mais claro o que quero dizer: os Bororo de Mato Grosso e os Canela do Maranhão apresentam uma série de semelhanças - falam línguas do mesmo tronco macro-jê, vivem adaptados ao cerrado, têm aldeias circulares, deslocamento do marido para a casa materna da esposa, divisão em metades, etc. - que permitem incluí-los na mesma área cultural. Entretanto, os Bororo e os Canela não se encontram no seu dia a dia, uma vez que estão separados por aproximadamente 1200 km de distância.
No entanto, os Canela vivem próximo dos Guajajara, que encontram com frequência, com os quais já tiveram relações de hostilidade, hoje amistosas. Não obstante, os Guajajara falam um língua do tronco tupi, vivem na floresta, não têm aldeias circulares e nem divisão em metades, e a escolha de residência pelo novo marido depende de um jogo de forças entre seu pai e seu sogro. Se Canelas e Guajajaras não se parecem, em compensação se articulam. Aliás, convém ter em conta que, em muitos casos, sociedades indígenas se articulam, ajustam-se em simbioses, justamente porque são diferentes. São também conhecidos aqueles casos em que algumas sociedades deixam de desenvolver certas técnicas justamente para poder, através de trocas, obter os artefatos ou serviços produzidos com ajuda delas por seus vizinhos, estabelecendo assim uma articulação com eles.
Apesar disso, na divisão em áreas que apresento a seguir, incluí os Canela na mesma área dos Bororo (Tocantins - Xingu), deixando os Guajajara em outra (Pindaré - Xingu). Trata-se de uma escolha arbitrária. Na verdade, preferi pôr os Canela junto com os Bororo porque nesta segunda metade do século XX tanto uns quanto os outros têm feito parte de um conjunto de sociedades indígenas, ditas do Brasil Central, sobre as quais se tem desenvolvido mais um projeto comparativo. Ou seja, os etnólogos se acostumaram a vê-las juntas. Uma vez que uma boa dose de arbítrio fica nas mãos do etnólogo que propõe a divisão, preferi chamar essas áreas de etnográficas, ao invés de culturais.
A outra diferença entre a divisão de Galvão e a que aqui apresento é que a minha não se limita ao Brasil. Levando em conta que várias sociedades indígenas vivem em ambos os lados da fronteira entre o Brasil e outros países, resolvi estender as áreas etnográficas para toda a América do Sul, uma opção que contribui também para romper com a tendência dos pesquisadores brasileiros de limitarem seus interesses de pesquisa ao âmbito do território do país. Se não estendi a divisão para todas as três Américas, foi por receio de perder o estímulo de continuar perante tanto trabalho.
Ao examinar o mapa em anexo, o leitor notará que algumas das áreas sugeridas por mim são exatamente as mesmas propostas por Galvão; outras são desmembramentos delas, e ainda outras são expansões das áreas de Galvão para além da fronteira brasileira. Reconheço que nada há nelas que se pretenda definitivo. Embora haja razões para assim traça-las, há igualmente outras razões para desenhá-las de outra maneira.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Vídeo maravilhoso com Isabel Allende

Essa mulher é bárbara!!!
Vale conferir o vídeo.
http://www.ted.com/talks/lang/por_br/isabel_allende_tells_tales_of_passion.html
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