domingo, 12 de julho de 2009

Dialogando com as memórias....


Neste texto postado abaixo, o autor nos chama a atenção para a construção de uma memória coletiva, na cidade de Maurília. Memória esta que busca num passado, mitificado pela própria comunidade, as belezas de uma cidade provinciana, que tinha encantos na simplicidade de uma vida que se extinguiu há muito na região.

O romantismo dos cartões postais, das imagens impressas e amareladas de um passado bom, onde havia hospitalidade, inocência, fartura....

Passado este que só fica na memória do presente, que só é inteligivel nesta memória do presente.

Provavelmente aquelas imagens que hoje se apresentam amareladas no papel do cartão, eram na época em que foram feitas, os lugares eleitos como passíveis de serem lembrados no futuro... passíveis de serem perpetuados...

Porque, nem tudo... nem toda a Maurília antiga, pode ser transcrita para o futuro...

Os problemas socias do passado, lá ficaram... só vieram para a memória póstuma aquilo que se considerou belo.

Assim, também esse passado mítico, elaborado, nostálgico, mostra apenas uma via de ação da velha cidade... do lugarejo com galinhas e coreto... com belas mocinhas que passeiam com suas sombrinhas brancas.

Onde está a verdadeira Maurília? Provavelmente na memória de velhos... em outras fotografias... em documentos que salientam a desenvoltura das ações de órgãos públicos... das vendas de terras, dos processos -crimes...

Podem existir tantas Maurílias!!!

A memória coletiva é assim... geralmente busca-se um eldorado num passado nostálgico... principalmente se este passado for oficialmente oferecido aos turistas de hoje, a grupos de frequentadores de museus e casas de cultura. Estes lugares querem mostrar uma cidade bela... querem mostrar belezas que não estão mais ao alcance na cidade moderna...

Mas, preocupam-se com as outras Maurílias? Deixam ver elementos que não foram eleitos para serem congelados num cartão postal?

Geralmente não!

Os elementos que compõem as amostras de museus de cidades são fracos, positivos, lineares... e não cogitam estabelecer uma crítica construtiva através de suas possibilidades de compreensão pelos visitantes. Estas 'verdades' vêm prontas. São modelos pré-estabelecidos por aqueles que querem apresentar 'uma' história...

Os cartões postais trazem muito mais que uma imagem bonita. Trazem escolhas... escolhas de classes sociais, escolhas de lugares a serem congelados na memória coletiva como importantes...mas antes de tudo: traduzem os poderes de uma época, num determinado lugar, pois são veículos de divulgação desse lugar...

Toda fotografia é uma escolha... de ângulo, de cores, de beleza.... um recorte do tempo... um recorte do espaço...

O congelamento de memórias que serão lembradas...

O resto... o não dito... o fora do foco... é pra ser esquecido.... (ou pelo menos essa é a intenção).

Assim se constroem memórias coletivas e 'verdades históricas inconstestáveis'!

quinta-feira, 9 de julho de 2009

As cidades e a memória


CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. São Paulo: Cia das Letras, 1991.


Em Maurília, o viajante é convidado a visitar a cidade ao mesmo tempo em que observa uns velhos cartões postais ilustrados que mostram como esta havia sido: a praça idêntica mas com uma galinha no lugar da estação de ônibus, o coreto no lugar do viaduto, duas moças com sombrinhas brancas no lugar da fábrica de explosivos. Para não decepcionar os habitantes, é necessário que o viajante louve a cidade dos cartões postais e prefira-a à atual, tomando cuidado, porém, em conter seu pesar em relação às mudanças nos limites de regras bem precisas: reconhecendo que a magnificência e a prosperidade da Maurília metrópole, se comparada com a velha Maurília provinciana, não restituem uma certa graça perdida, a qual, todavia, só agora pode ser apreciada através dos velhos cartões postais, enquanto antes, em presença da Maurília provinciana, não se via absolutamente nada de gracioso, e ver-se-ia ainda menos hoje em dia, se Maurília tivesse permanecido como antes, e que, de qualquer modo, a metrópole tem este atrativo adicional - que mediante o que se tornou pode-se recordar com saudades daquilo que foi.

Evitem dizer que algumas vezes cidades diferentes sucedem-se no mesmo solo e com o mesmo nome, nascem e morrem sem se conhecer, incomunicáveis entre si. Às vezes, os nomes dos habitantes permanecem iguais, e o sotaque das vozes, e até mesmo os traços dos rostos; mas os deuses que vivem com os nomes e nos solos foram embora sem avisar e em seus lugares acomodaram-se deuses estranhos. É inútil querer saber se estes são melhores do que os antigos, dado que não existe nenhuma relação entre eles, da mesma forma que os velhos cartões postais não representam a Maurília do passado mas uma outra cidade que por acaso também se chamava Maurília.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Embalando teorias nas diferenças das águas...


Aqui estou para falar na importância do mar e das águas salgadas na cosmologia Guarani.

Sim... essas águas que eles têm como um elemento vital e curativo dos males do mundo e dos corpos. Em verdade, esse povo vê o mundo ao seu redor como um corpo humano... onde as águas dos rios são suas veias, por onde corre o líquido vital: a água.

E o Mar é mais que isso... é mais que o sangue da terra...é remédio para todos os males. É o fluído onde se encontra a Terra sem Males.

Os Guarani se banham no mar, brincam nas ondas e adoram o salgado da água... mas a respeitam... sabem de sua força... e a temem. Mas, não um temor de medo... apenas de respeito e reverência.

Os Kaingang não gostam da água salgada. Tem medo dos espíritos que a povoam...e acham incômodo o sal...

Não costumam se banhar no mar. Preferem os rios. A água doce.

Uma vez conversando com um interlocutor Guarani perguntei se ele sabia por que os Kaingang não gostam do mar como eles gostam... e ele me disse: Eles não tem reza pra dominar o espírito das águas salgadas.. por isso tem medo. Nós temos reza... nós sabemos respeitar o espírito. Por isso ele nos deixa entrar nas águas salgadas, que foram feitas por Ñanderu para os Guarani.. não foram feitas pros Kaingang...eles são de outro lugar..não daqui.

Mais uma vez aqui, vejo a importância do domínio das categorias nativas para entender a lógica das coisas.

O mar para mim, é apenas mar... que aliás, me fascina muito...adoro praia, adoro ondas batendo nas pedras... mas, não tenho reza pra entrar nas águas salgadas...

Na cosmologia ameríndia, o domínio dos espíritos que regem a natureza das coisas é imprescindível para que tudo funcione em harmonia. Sem reza, o Kaingang tem receio de entrar nas águas salgadas.. é um domínio que não é seu...que não faz parte do seu panteão de conhecimentos...e talvez por fazer parte do panteão dos Guarani, este seja também respeitado e temido...

Os Guarani já me haviam falado várias vezes sobre os espíritos que povoam as plantas, os animais, os rios, tudo... Esses espíritos precisam ser domados pelos rezadores, senão criam desarmonia e causam mal aos humanos. Têm plantas que não podem ser domadas, e dessa forma, não podem ser trazidas para perto das aldeias, onde vivem crianças e mulheres...muitas vezes vistas como mais frágeis e propicias a serem 'atacadas' por doenças trazidas por estes espíritos da mata.

Muitas vezes, apenas certos rezadores tem domínio sobre certas plantas e animais da mata... assim como das águas, nas nascentes de rios... no mar / oceano.

Esses 'lugares' construídos pelos povos tem sua própria dinâmica... é alí que os conceitos sobre as coisas do mundo vivido se dão na prática. Respeitar os 'espaços', os domínios seus e dos outros, faz com que esse mundo vivido se torne material. Pois é aí que as filosofias aceitas e compartilhadas pelo grupo se relacionam com as coisas partilhadas. Sejam essas 'coisas' uma praia, um cesto com desenhos gráficos, sejam pinturas no corpo que protegem dos espiritos, seja um canto, uma reza...

As vivências se materializam de várias formas e assim se tornam compreensíveis. A cultura assim, se torna material quando um homem para entrar no mar tem de dominar a reza do espírito que é dono do mar.

É assim que é... no balanço das culturas... as diferentes formas de ver o mundo... através de uma antropologia ameríndia.

sábado, 4 de julho de 2009

Os indivíduos coletivos: a cosmologia ameríndia


Em minhas leituras, minhas experiências vividas, meu estranhamento...lá está a simbologia, as filosofias ameríndias.

Coisas belas, as vezes estranhas... histórias densas... eis aí a narrativa densa de que me fala Geertz... tão densa que as vezes se torna turvo... dificultando a compreensão. Mas assim é que é. As explicações sobre o mundo e as coisas do mundo não são simples...

Se assim o fossem não teriamos por que nos preocupar em entendê-los... não haveriam diferentes formas de cultura e de vida humana... não haveriam religiões, estados, economia.. nada de humano haveria... os humanos criam e se recriam dentro de suas culturas e cosmologias... dentro de suas redes...

Vivemos em rede social, somos indivíduos coletivos... sempre... mas nossa sociedade - a ocidental - tenta dividir o indivísivel... as sociedades ameríndias não... elas são o coletivo e só se compreendem dessa forma. Um homem é várias coisas, tem vários espíritos, suas relações com seus pares, é um coletivo de seres aglomerados num corpo, que se divide em várias partes que só são humanas quando juntas.

Falar assim parece uma viagem... mas é assim que é...

Uma pessoa só se torna uma pessoa quanto todas as partes que compõem a personificação de seu ser na sua sociedade o compõem...

Mas, o que é isso? Como se dá isso?

Quando uma criança Guarani nasce, ela traz em si uma alma, divina... que vem de um seu antepassado. Ela é então um 'avô'.. um 'antigo' que retorna... a infância não está desvinculada da madureza. O respeito pela criança é o mesmo respeito ao ancião... ela é ele, em espírito, que retorna ao convívio.

Mas, não só, ele volta acompanhado de outros seres... de uma alma animal, que vem da mata, da natureza... e que fará dessa criança alguém diferente do ancestral que o encarna... essa alma é terrena, mas também ocupa o corpo desse pequeno ser...mora nele e lhe dá as características físicas e personalidade... essa alma tem de ser domada pelos pais da criança, e pelos rezadores da comunidade...

Mas, não acaba aí esse ser coletivo... outros espíritos povoam esse corpinho... espíritos bons e maus, que podem ficar ou devem ser mandados embora....todos esses seres ligam essa criança ao cosmo... a natureza, aos rios e matas...

Os pais se protegem e protegem a criança cuidando sua alimentação, seu comportamento diante da comunidade... pois seus atos podem desencadear desequilibrios entre os espíritos que povoam seus corpos... e isso faz mal à criança...traz 'doenças'.

Esses seres, todos coletivos, tem de encontrar a harmonia para viver. Uma harmonia com o externo e com o interno...o homem ameríndio nunca é sozinho... ele é um misto com seu próprio ser densamente povoado, e com as coisas que o rodeiam, a natureza viva, onde a humanidade também se manifesta.... tudo tem alma, tudo tem espírito...tudo é coletivo e humano... mesmo que essa humanidade se transfigure na selvageria... uma onça também tem familia, aldeia, roça, cunhado...só que vive no mundo das onças e não no mundo dos homens... só que esses mundos se tocam... e as vezes os homens virão onças e onças viram homens.

É tênue a névoa que separa os mundos...

É densa a composição das filosofias...

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Invariáveis derrotas... memoráveis avanços....

clamar
Bem, bem... diante das pespectivas reais.. meu time não vai pra final da libertadores... acabou-se... era uma vez...

Estamos sem ataque... e isso já era algo visto desde outros jogos... me resta agora beber um pouco de vinho.. lamentar... esquecer e voltar ao trabalho...

É, querido Grêmio... até a pé nos iremos...com o Grêmio onde o Grêmio estiver...mas valia dar essa vitória pra gente, né...

Enfim... nem só de derrotas vive o homem - ou a mulher no caso aqui - volto ao trabalho, pois desse busco a vitória. Mas, já que a felicidade da vitória do Grêmio se foi, me restam os alfarrábios... retomo minhas leituras... embora esteja bastante intrigada com o que estou lendo... uma revisão bilbiográfica dos sítios arqueológicos do sul do Brasil!!! Algo do tipo: vamos provar que há continuidade entre os atuais Jê do sul e os vestígios arqueológicos pesquisados até o momento. Bem, não que o trabalho não tenha lá suas razões de ser... Creio até que tenha muitas...é um bom trabalho...mas também há uma tentativa meio forçada de apresentar evidências para provar uma hipótese já concebida de antemão. É exatamente aí que fico intrigada... Se a hipótese tem de ser confirmada, haverá algo a dizer? Ou tudo já estava dito desde o princípio?

Na pesquisa, assim como no jogo de futebol os resultados só vêm no final... e dependem do desempenho do time - ou do pesquisador. Não dá pra saber o resultado antes da partida.. é impossível....ou não é pesquisa...

Busca-se o melhor resultado, mas este pode não vir a nosso favor... pode chegar por outro lado... e garantir a vitória do adversário...

Alguém vai sair feliz... a torcida do meu time ou a do outro...

O pesquisador e suas hipóteses confirmadas.. ou o nativo, os documentos, o objeto apontando pra outra coisa...

No caso do futebol... vou ficar muito triste... é a vitória perdida... o campeonato não ganho.. a taça que não fará parte do acervo...

Mas, no caso da pesquisa não... aqui há um ganho... muito maior se minhas hipóteses não são confirmadas... não perco nada...ganho!!! Novas perspectivas... novos objetos...novos olhares sobre ele... coisas que não estavam ao alcance da minha mão e agora estão.

Bem... pode não ser tão simples abrir mão das certezas e olhar para as incertezas... pode dar medo.... e sim... tenho pavor quando me deparo com essas incertezas.. mas é um pavor instigante... de avançar sobre o desconhecido... de entrar no campo do adversário vestindo a camisa dele...

Dá medo!!

Mas, é o que quero... entrar no outro campo... não apenas apenas responder minha hipótese com um sim... mas com um 'será'? Ou com 'não'... é outra coisa... eu estava errada...

Mas, como é difícil esse exercício.... como é difícil ver o que não prevemos... como é difícil aceitar a vítoria do adversário e dela tirarmos um aprendizado mais profundo...

Vamos lá hipóteses... façam o melhor que tem a fazer... me desafiem!!!

Dos estranhamentos e continuidades: quando a etnografia desafia a arqueologia.


Buenas, eis que me tomo a pensar... Haveria uma continuidade cultural e de memória entre os atuais kaingang e Guarani do sul do Brasil e os antigos indígenas, moradores desta região, que deixaram seus rastros e pedaços de vida para que estudassemos hoje?

Eu creio que de alguma forma isso é possível sim. Os antepassados deles são os criadores dos vestígios que nós arqueólogos estudamos. Mas, qual a ligação que eles fazem desse passado com o seu presente?

Com certeza não é tão direta e nem igual àquela que nós fazemos. Por isso muitos arqueólogos ignoram as palavras indígenas sobre o passado, afirmando que estes só se aproveitam do que é dito sobre eles pra tirarem vantagens, e seguem procurando esse passado sozinhos.

Nosso jeito de contar a história e entende-la é diferente do jeito que eles entendem.. e se entendem dentro dessa história. Os caquinhos de cerâmica, as lasquinhas de pedra, as construções de antigas aldeias são vistos por eles de uma forma e por nós de outra.

Esses restos de vidas passadas não têm para essas populações indígenas atuais uma importância concreta dentro de suas concepções de memória, porém, são importantes materialmente, pra eles nos provarem a existência de sua antiguidade na região, e provarem que seus avós viveram e construiram um lugar para seus descendentes. Ou seja, são importantes para nós... é para nós que eles têm de catar os caquinhos do passado.

Na sua concepção, os grupos indígenas buscam na memória as histórias contadas pelos velhos, que trazem os lugares, os animais, as plantas... e até mesmo as técnicas de fabricação de muitos utensílios... muitas práticas de cultivo e de manejo do ambiente. É esse o verdadeiro passado a ser registrado... é essa a história que fica na memória e está sempre em atualização... incorporando a cada vez outros elementos a ela, sem com isso perder o cerne de sua concepção original...

Mas, então... como acreditar nessas histórias, que a etnologia traz e que pensamos em associar com os vestígios arqueológicos, já que os índios as reinventam a cada dia?

Bem, penso que não buscamos analogias diretas... pois se o fizermos incorreremos no erro de achar que as sociedades se congelam no tempo e no espaço.... e isso não acontece, com nenhuma delas... nem com a nossa...

Mas, que as falas, os indicadores apontados pelas histórias indígenas podem nos levar a um entendimento maior e melhorado das maneiras como essas populações constroem sua história no mundo e como esses objetos fazem - ou fizeram - parte dessas construções. Nunca saberemos ao certo como pensavam e agiam os povos do passado, mas o pensamento ameríndio tem uma lógica... e se essa lógica for compreendida, poderemos inferir que a maneira que os antigos moradores desses lugares que se transformaram em sitios arqueológicos, seguiam essa lógica... e assim poderemos entender melhor não só os caquinhos e lasquinhas, mas o espaço ocupado... as paisagens construídas... a vida em movimento...

A questão é: será que os arqueólogos, tão endurecidos pelas ciências duras, estão prontos para tentar entender os índios a partir da visão que os próprios tem de si? E mais... será que estão aptos a serem pesquisados por esses nativos e inseridos nas pesquisas como atores?

Sem uma resposta positva a estas questões, continuaremos contando caquinhos e lasquinhas... e dizendo que os índios de hoje mentem sobre o passado deles.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Índios de Rondônia viajam à Europa para conhecer acervo recolhido em suas aldeias


Por Vanessa Farias

em 29/05/2009

Publicado no Diário da Amazônia

Porto Velho - RO

30/06/2009


Sete índios dos povos Aruá, Jabutí, Kanoé, Makurap e Tuparí, que vivem nas terras indígenas de Rio Branco e Guaporé, em Rondônia, embarcam neste sábado para a Suíça, onde terão a oportunidade de mostrar a cultura de cada etnia e trocar conhecimentos com pesquisadores suíços. A viagem no valor de aproximadamente R$ 70 mil está sendo financiada pelos museus etnográficos de Basiléia, na Suíça, de Viena, na Áustria; de Berlim, na Alemanha e do museu de Leiden, na Holanda. O intercâmbio é resultado de um projeto de recuperação de costumes indígenas realizado a longo prazo das duas terras indígenas. “Os museus possuem arquivos do ano de 1934, quando as pesquisas com esses povos começaram”, conta a fotógrafa e jornalista Gleice Mere que faz a intermediação há dois anos entre os índios e os pesquisadores suíços.Anísio Aruá, José Anderê Makurap, Marlene Tupari, Dalton Tupari, Analícia Makurap, José Augusto Kanoé e Armando Jabuti estão ansiosos para conhecer os objetos e registros fotográficos de seus antecedentes que estão guardados nos museus. “Além de querer conhecer os parentes dos homens que nos ajudaram no passado fazendo esses registros e levando a nossa cultura para outro país, nós queremos ver as fotos dos nossos pais e avós, identificar o nosso passado”, diz Marlene Tupari.O indígena José Anderê anseia por uma única expectativa. “Eu nem sei ler nem escrever, nem sei quantos anos de idade eu tenho, mas única coisa que quero é poder ver meus pais que eu não conheci. Tomara que tenha fotos deles por lá”, dispara. A filha, Analícia, estudou até a 4ª série do Ensino Fundamental e acredita que a viagem servirá para ampliar seus conhecimentos. “Nós vamos trocar experiências com pessoas que vivem em um país de primeiro mundo, e isso pode ser muito bom para o nosso conhecimento de vida”, declara.Cestos de olho de palha usados na aldeia para “guardar” as galinhas que vão chocar os ovos, roupas tradicionais, arcos e flechas são a contrapartida dos indígenas para os museus. “Eles precisam levar novos arquivos para o museu para enriquecer o material que já existe lá”, explica Gleice Mere. RegistrosEm 1934, o pesquisador suíço Emil-Heinrich Snethlage chegou à região do Guaporé, onde morou por seis meses coletando materiais para os museus, conhecendo os costumes dos povos e registrando a história das tribos da área. Em uma segunda viagem à região, Emil escreveu um diário de 1042 páginas que nunca foi publicado, gravou um filme mudo e sons de cânticos indígenas que são reconhecidos pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade. “Essa viagem vai marcar a gente, com o que vamos poder ver de diferente no trabalho que nossos avós e pais faziam, as fotos, as músicas. Tudo vai ser importante para nós”, enfatizou José Augusto Kanoé. Para aqueles que nunca saíram do Estado, um medo que não é maior do que a vontade de viajar é revelado. “Eu nunca viajei de avião. Dá um medo de imaginar, mas eu vou conseguir”, diz Marlene Tupari.Além de visitas aos cinco museus patrocinadores, está previsto também o encontro com as famílias dos pesquisadores que passaram pela região de Rio Branco e Guaporé, oficinas com crianças locais, apresentações de filmes sobre a Amazônia, dança e pintura indígena e o reconhecimento do acervo de objetos guardados nos museus. A chegada dos indígenas na Suíça está prevista para este domingo e o retorno da viagem será feito em 20 dias.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Arqueologia e povos indígenas: a construção de um diálogo sobre paisagem e manejo ambiental.


Quando falamos em sítios arqueológicos logo nos vêm a mente àqueles lugares cheios de cerâmicas quebradas, lascas de pedras, restos de fogueiras, etc.... Que estão lá sob um abrigo de rocha no meio de um mato, ou numa estrutura semisubterrânea na propriedade de algum morador da Serra, ou numa lavoura qualquer, onde um arado trouxe à tona vários objetos de ocupações antigas daquele lugar.
E lá vamos nós, arqueólogos, recolher, catalogar, limpar, guardar os caquinhos como se fossem um tesouro.
Mas, e o lugar onde estavam os objetos? Como recolher, lavar e guardar? Não há como e também, poucas vezes pensamos muito nisso, que esse lugar pode ter sido um objeto da cultura material de uma sociedade que hoje não está mais ali. E esse mesmo lugar, pode hoje ser parte da cultura material de outra sociedade – a lavoura do colono, por exemplo, a casa construída sob um antigo cemitério indígena....
Então as pessoas fabricam “lugares” como fabricam potes de cerâmica, ou facas de pedra, ou potes de plástico e enxadas? Sim, há uma finalidade social para a criação de uma roça e de uma lavoura, assim como a escolha do lugar onde se constituirá a casa e se fará um jardim.
São “objetos” humanos, nós construímos isso, uma paisagem passa a ser uma paisagem quando lhe designamos tal categoria, então esse lugar passa a ter significado para nós, humanos.
E isso se dá com todas as sociedades humanas, é o que chamamos patrimônio na linguagem ocidental e assim acrescentamos nomes, valores e designações sociais à natureza que passa a ser uma paisagem, um lugar...
O trabalho etnográfico junto aos Guarani tem se apresentado muito rico nesse sentido, já que a construção de “lugares”, de terra de mbyá – mbya retã – é recorrente entre nossos diálogos e pude perceber como a mão humana é freqüente na expansão de espécies de flora e fauna dentro da mata atlântica.
Os índios estão recuperando áreas, que se encontram esgotadas por causa do cultivo do eucalipto, com o replantio de nativas. E essas espécies são trazidas, muitas vezes, de longe para o território. Visitas de parentes, que vêm de outros estados e até de outros países, sempre são formas de que algumas espécies sejam remanejadas. As trocas de sementes de milho, mudas de fumo e outras espécies cultiváveis são recorrentes, mas há também a busca de espécies da flora nativa da mata atlântica, que são buscadas nos lugares onde se encontram pra repovoar os lugares de onde foram retiradas.
Essas práticas podem ser vistas como tradicionais entre esses povos, e nossa imaginação nos leva a pensar que no passado tais práticas também devam ter sido corriqueiras. Portanto os ecossistemas diversificados devem muito a ação antrópica, já que o homem faz parte da natureza, assim como os demais animais.
Essa necessidade de ter um lugar ideal, escolhido pelo grupo social, fica evidente quando se vai procurar entender a forma de deslocamentos exercidas pelos Guarani. Porque eles não ficam nas reservas estipuladas pelo governo ou estão devidamente inseridos nas povoações das cidades ou nas povoações coloniais no interior, já que são agricultores? E quais os critérios que buscam para as demarcações de terras atualmente?
Há o que eles chamam “lugar para criar família”, que é uma terra cultivável, com mata e águas limpas. Por isso, quando conseguem um “lugar” vão logo transformando a paisagem em mbyá retã, plantando espécies que são importantes para eles e fazendo clareiras para roças com seus milhos coloridos.
É claro que os indígenas de hoje são modernos. Não podemos esperar que tenham se mantido intactos, iguais aos seus antepassados, mas a lógica da tekoá, do lugar pra roça, da beleza da mata para a saúde do Guarani, se mantém, mesmo que somente no imaginário social, e estes sempre tentam recuperar esse lugar ideal.
Claro que essa terra sonhada, nem sempre condiz com as áreas que ocupam, porque as terras que são designadas para índios atualmente são áreas íngremes, pedregosas, que não servem para o cultivo e necessitam recuperação ambiental, em muitos casos.
Há muitas situações em que encontramos vestígios arqueológicos nas proximidades das aldeias, mas estes não são os principais fatores da escolha atual do lugar, mas é claro que sua identificação nos faz pensar no que é e no que era a definição de ”lugar” ideal para as sociedades atuais e antigas.
E como lidar com essa noção de patrimônio indígena, já que a nossa muitas vezes diverge da deles, e aí temos um impasse, principalmente quando se trata de áreas de conservação ambiental.
Os Guarani associam a boa saúde da terra à sua própria saúde. A utilização de várias espécies vegetais como remédios e como ervas para os rituais religiosos é recorrente e necessita da mata, porque nem todas as espécies são cultiváveis perto da casa, por diferentes motivos: pode ser tabu ou porque realmente não se dão bem no ambiente do terreno aberto do pátio, ou junto das roças. Então o território de domínio envolve a mata e seu manejo é necessário e auto - sustentável, porque não há interesse dos índios na sua destruição, muito pelo contrario.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Senado Nacional... só explodindo!!!


DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Pelo menos 250 nomeações para cargos de confiança no Senado foram feitas por meio de atos secretos, revela levantamento da Folha na base de dados divulgada ontem pela comissão de servidores da Casa que investiga o caso.Foi a principal serventia dos boletins não publicados, que também serviram em menor escala para esconder decisões administrativas, aumento de benefícios, exonerações e mudanças de cargos.Em 30 de junho de 2006, por meio de um ato secreto, Marcelo Zoghbi, filho do diretor afastado de Recursos Humanos do Senado, João Carlos Zoghbi, foi remanejado para o gabinete do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), onde ocupou o cargo de assessor técnico.Pai e filho foram indiciados pela Polícia Legislativa por usarem uma empresa em nome de laranjas para intermediar empréstimos consignados a servidores do Senado.Tão logo foi procurado pela Folha, Demóstenes se dirigiu ao plenário do Senado para se explicar. Disse que nomeou Marcelo a pedido do então senador Edison Lobão (PMDB-MA), de quem é amigo.Questionado se o favor não contradiz o seu discurso crítico, respondeu: "Seria, se ele fosse um funcionário-fantasma, mas ele trabalhava", disse.A mulher do ex-diretor de Recursos Humanos, Denise Zoghbi, e outros dois filhos, João Carlos Zoghbi Júnior e Luis Fernando Zoghbi, também ganharam cargos de confiança por meio dos atos.De 2005 a 2007, período em que o Senado foi presidido por Renan Calheiros (PMDB-AL), foram nomeadas 98 pessoas de forma sigilosa. Políticos aliados dele estão entres os nomeados no período, entre eles a presidente da Câmara de Murici (AL), Marlene Galdino dos Santos e Santos. Renan Calheiros Filho é o prefeito da cidade.Em 2008, entre as nomeações secretas está a de Rafael de Almeida Neves Júnior, filho do senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR).Cinco anos antes, por meio dos atos, foram nomeadas quatro pessoas no gabinete do senador Sérgio Zambiasi (PTB-RS). No mesmo dia, três funcionários de Zambiasi foram nomeados para a quarta-secretaria. Via assessoria, o senador informou que a responsabilidade pela não publicação dos atos é da administração do Senado.A nora do senador Efraim Morais (DEM-PB) foi exonerada por meio de ato secreto do cargo de assistente parlamentar da primeira-secretaria do Senado em 14 de janeiro passado. Até fevereiro, Efraim era o primeiro-secretário da Casa.Por determinação do Supremo, parlamentares tiveram que demitir parentes até o fim de outubro passado. Flávia Carolina Braz Rocha se casou com o deputado Efraim Filho (DEM-PB) no dia 5 de dezembro de 2008. Com isso, ela permaneceu no cargo no Senado irregularmente por 39 dias.Conforme o gabinete do senador, a exoneração deveria ter saído em dezembro, mas, por um erro, o documento não foi encaminhado para a publicação no boletim administrativo. O gabinete informou desconhecer que o ato seja secreto.Os atos também prestaram-se a reajustar pelo menos três vezes o valor do auxílio-alimentação pago aos servidores. Serviram para compor comissões que estudaram mudanças nas regras das licitações do Senado, a realização de sindicâncias e emendas ao Orçamento do governo federal.

MEUS LIVROS!!! Da bagunça... a estante... da estante...a tese....


Eis que para escrever é preciso organização. Nem sempre a organização dos outros coincide com a minha... então, é preciso organizar do meu jeito... mesmo que pareça desorganizado.

Os livros, os xerox, os documentos, as fichas... preciso de tudo num mesmo lugar... e hoje arranjei este lugar.

Apossei-me de uma estante. A menor... mas agora minha. Alí estão eles agora... todos ao alcance da minha mão.. todos enfileirados.... me observando e eu a observá-los.... os livros... a papelada... minhas traças....

Com meus marcadores amarelos... franjados com 'amarelinhos' saltando de suas páginas.. minhas anotações...é assim que consigo trabalhar... sempre direto no livro... mesmo que eu escreva fichamentos e faça anotações em cadernos... sempre recorro direto ao livro.... preciso deles por perto... junto de mim... no meu espaço... me dão segurança...adoro manuseá-los.. passar a mão por suas páginas... as vezes já surradas de tanto vai e vem... as vezes com manchas de café... das madrugadas em que me fizeram companhia...

Meus companheiros inseparáveis e amados...os livros...

Colorindo a estante, com suas multiplas capas...suas inscrições...

E assim vou colorindo minha imaginação... minha mente... e dando vazão ao discurso... ao meu discurso... as minhas interpretações... aos meus problemas.... vai surgindo um texto...dois.. outros livros... misturando coisas, idéias... fazendo cruzamentos...entre tantas idéias misturadas...

As palavras vão surgindo...vão compondo páginas... e vão se transformando em algo.. outro texto... outros livros... outras palavras impressas no papel...

Vai surgindo a tese...aos pouquinhos.... em pedaços... fatias de leituras... de madrugadas com café... de tardes ensolaradas em que o sol lá fora só é visto pela janela... de manhãs dormentes em que o calor da cama é trocado pelo assento da cadeira em frente ao computador...

Das festas que não fui... dos vinhos que não bebi... da música que não dancei...vai surgir um texto... palavras impressas....análises feitas... imagens construídas... dando forma a outro livro....com páginas brancas e pretas...

E me sinto feliz ao ver essa construção se erguendo no papel...

Um dia a tese vai fazer companhia aos outros livros daquela estante preta...