
Essa mulher é bárbara!!!
Vale conferir o vídeo.
http://www.ted.com/talks/lang/por_br/isabel_allende_tells_tales_of_passion.html
Um lugar para libertar ideias, um lugar para organizar a mente, um lugar para discutir a feiura do mundo e encontrar os respingos de um arco iris...


As preocupações que tenho quanto a inclusão e permanência desses estudantes indígenas na Universidade, é que a academia sempre se mostrou muito fechada aos saberes que ela desconhece, e estes alunos vêm pra Universidade trazendo na bagagem um conhecimento prático, rico, elaborado pelos anos de aplicação e eficácia em suas comunidades.
O saber indígena não é transmitido nas salas de aula, por um professor que fez curso superior para poder estar ali ensinando. Esses saberes são aprendidos durante toda a vida e de forma integrada, não é um saber fragmentado.
Aliás, a palavra 'ensinar' não existe no vocabulário Guarani, por exemplo, apenas o vocábulo equivalente a 'aprender', porque na concepção ameríndia, o ensinamento é na verdade o aprendizado de todos. E isso não tem um tempo definido para acontecer, ele acontece o tempo todo, durante a vida de cada indivíduo e de forma coletiva durante o convívio com a comunidade e a família.
Não são, portanto, concebidos saberes desconectados do todo, como acontece em nossa sociedade.
Isso faz uma grande diferença na forma de elaborar os pensamentos entre essas pessoas, que aprenderam a aprender em grupo, de forma coletiva e integrada ao mundo em que vivem.
Quando esses estudantes chegam aqui na Universidade, descobrem que terão de aprender a aprender de forma fragmentada, como indivíduos, e terão de mudar a forma de elaborar seus pensamento para apreender os novos conhecimentos que exigem uma nova estrutura psicológica para o aprendizado.
É aí que reside a preocupação: será que as Universidades estarão um dia equipadas para trabalharem corretamente com esses outros modos de elaboração filosófica de mundo?
Atualmente, não se tem preparo para receber estes alunos e respeitar essas suas maneiras de ser. O que acaba por acontecer é que a Universidade acaba impondo ao estudante indígena a sua maneira de agir e pensar, forçando-o a mudar para conseguir viver e conviver dentro dela. Mas, quando será que a Universidade vai estar pronta a mudar também para receber estes outros saberes?
É preocupante ver esses jovens que vem lá de suas famílias, muitas vezes desacostumados à correria das cidades e aos prazos curtos impostos pelos ocidentais para desenvolver trabalhos, leituras, artigos...
Essa é uma dinâmica nova em suas vidas. Eles começam a ter uma carga tensa de obrigações que antes não lhes aparecia dessa maneira, já que o trabalho coletivo, o aprendizado harmonizado com as tarefas do dia a dia, lhes fazia ter tempo para o trabalho e para o lazer, fazendo muitas vezes dos dois uma única coisa.
Aqui não é assim. A Academia trabalha com outra lógica de tempo, e esse tempo deve ser customizado, utilizado ao máximo, para dele extrair o máximo de produtos.
Aí está outra questão importante: trabalhamos com a idéia de produção para o excedente. Nós somos obrigados a produzir mais do que precisamos para poder suprir as demandas da sociedade como um todo, e isso está enraizado nas tarefas acadêmicas, que promovem a produção.
Esses estudantes, jovens, que estão começando a se envolver cada vez mais com nossas práticas de desenvolvimento tecnológico, produção em massa, consumo e descarte, começam a perceber as diferenças - principalmente na questão tempo - que os fazem diferentes de nossa sociedade. Essa sociedade desenvolvimentista, que não tem tempo a perder, porque qualquer momento de relaxamento é visto como tempo perdido para a produção.
Isso não acontece desassociado de um quesito muito importante: a competição.
Essa competição é acirrada, e não funciona como no jogo de frescobol, onde ambos jogadores ganham... Aqui a competição se dá de forma brutal, alguém terá de perder para que o outro ganhe. Para os estudantes já acostumados com esse ritmo louco de nossa sociedade, essa competição é vista como incentivadora, já que os fará buscar serem os melhores entre seus colegas para dentre eles se destacarem e ganharem mais espaços, verbas, bolsas, etc.
Entre os indígenas não funciona assim. Não há vantagens em ganhar ou perder, na verdade todos deveriam ganhar e aprender, então, eles se vêem forçados a mudarem inclusive suas concepções de valores para poderem sobreviver dentro dessas novas lógicas de poder.
Há de se pensar em tudo isso. Há de se pensar em como englobar esses saberes indígenas na Universidade sem que deles se roube o encanto.
Há de se pensar como incluir um aluno indígena sem que dele se exiga o desencanto...




por: Luiz Fernando Veríssimo
Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido.
Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número, (unzinho e eu ganhava a sena acumulada), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito sim, dito não, ido para Londrina, casado com a Doralice, feito aquele teste…
Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo para esquecer o que não fiz – aliás, o nome do bar é Imaginário – sentou um cara do meu lado direito e se apresentou:
- Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo
E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo.
-Por que? Sua vida não foi melhor do que a minha?
-Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei a seleção. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até que um dia.
-Eu sei, eu sei… disse alguém sentado ao lado dele.
Olhamos para o intrometido. Tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz do que nós. Ele continuou:
- Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.
- Como é que você sabe?
- Eu sou você, se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola como me mandei para o ataque com tanta perfeição que fizemos o gol da vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés de um atacante e não me atirar. Como era um herói, me atirei. Levei um chute na cabeça. Não pude ser mais nada. Nem propagandista. Ganho uma miséria do INSS e só faço isto: bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido nos pés do atacante.
Ele chutaria para fora. Quem falou foi o outro sósia nosso, ao lado dele, que em seguida se apresentou.
- Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Não faria diferença. Não seria gol. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo também. Fui vendido para o futebol europeu, por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio…
- E o que aconteceu? perguntamos os três em uníssono.
- Lembra aquele avião da VARIG que caiu na chegada em Paris?
- Você…
- Morri com 28 anos.
- Bem que tínhamos notado sua palidez.
- Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo…
- E ter levado o chute na cabeça…
- Foi melhor, continuou, ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado.
- Você deve estar brincando.
Disse alguém sentado a minha esquerda. Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado.
- Quem é você?
- Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.
Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do que a outra. As conseqüências de anos de decisões erradas, alianças fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração.
Olhei em volta. Eu lotava o bar.
Todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente. Comentei com o barman que, no fim, quem estava com o melhor aspecto, ali,era eu mesmo. O barman fez que sim com a cabeça, tristemente.
Só então notei que ele também tinha a minha cara, só com mais rugas.
- Quem é você? perguntei.
- Eu sou você, se tivesse casado com a Doralice.
- E..?
Ele não respondeu. Só fez um sinal, com o dedão virado para baixo.
Creio que a vida não é feita das decisões que você não toma, ou as atitudes que você NÃO teve, mas sim, aquilo que foi feito!
Se bom ou não, penso, é melhor viver do futuro que do passado!
Hoje eu sei que eu sou a melhor versao de mim mesmo!