quinta-feira, 12 de maio de 2011

Tem índio na Universidade!!!!


As preocupações que tenho quanto a inclusão e permanência desses estudantes indígenas na Universidade, é que a academia sempre se mostrou muito fechada aos saberes que ela desconhece, e estes alunos vêm pra Universidade trazendo na bagagem um conhecimento prático, rico, elaborado pelos anos de aplicação e eficácia em suas comunidades.

O saber indígena não é transmitido nas salas de aula, por um professor que fez curso superior para poder estar ali ensinando. Esses saberes são aprendidos durante toda a vida e de forma integrada, não é um saber fragmentado.
Aliás, a palavra 'ensinar' não existe no vocabulário Guarani, por exemplo, apenas o vocábulo equivalente a 'aprender', porque na concepção ameríndia, o ensinamento é na verdade o aprendizado de todos. E isso não tem um tempo definido para acontecer, ele acontece o tempo todo, durante a vida de cada indivíduo e de forma coletiva durante o convívio com a comunidade e a família.
Não são, portanto, concebidos saberes desconectados do todo, como acontece em nossa sociedade.

Isso faz uma grande diferença na forma de elaborar os pensamentos entre essas pessoas, que aprenderam a aprender em grupo, de forma coletiva e integrada ao mundo em que vivem.
Quando esses estudantes chegam aqui na Universidade, descobrem que terão de aprender a aprender de forma fragmentada, como indivíduos, e terão de mudar a forma de elaborar seus pensamento para apreender os novos conhecimentos que exigem uma nova estrutura psicológica para o aprendizado.
É aí que reside a preocupação: será que as Universidades estarão um dia equipadas para trabalharem corretamente com esses outros modos de elaboração filosófica de mundo?
Atualmente, não se tem preparo para receber estes alunos e respeitar essas suas maneiras de ser. O que acaba por acontecer é que a Universidade acaba impondo ao estudante indígena a sua maneira de agir e pensar, forçando-o a mudar para conseguir viver e conviver dentro dela. Mas, quando será que a Universidade vai estar pronta a mudar também para receber estes outros saberes?
É preocupante ver esses jovens que vem lá de suas famílias, muitas vezes desacostumados à correria das cidades e aos prazos curtos impostos pelos ocidentais para desenvolver trabalhos, leituras, artigos...
Essa é uma dinâmica nova em suas vidas. Eles começam a ter uma carga tensa de obrigações que antes não lhes aparecia dessa maneira, já que o trabalho coletivo, o aprendizado harmonizado com as tarefas do dia a dia, lhes fazia ter tempo para o trabalho e para o lazer, fazendo muitas vezes dos dois uma única coisa.
Aqui não é assim. A Academia trabalha com outra lógica de tempo, e esse tempo deve ser customizado, utilizado ao máximo, para dele extrair o máximo de produtos.
Aí está outra questão importante: trabalhamos com a idéia de produção para o excedente. Nós somos obrigados a produzir mais do que precisamos para poder suprir as demandas da sociedade como um todo, e isso está enraizado nas tarefas acadêmicas, que promovem a produção.
Esses estudantes, jovens, que estão começando a se envolver cada vez mais com nossas práticas de desenvolvimento tecnológico, produção em massa, consumo e descarte, começam a perceber as diferenças - principalmente na questão tempo - que os fazem diferentes de nossa sociedade. Essa sociedade desenvolvimentista, que não tem tempo a perder, porque qualquer momento de relaxamento é visto como tempo perdido para a produção.
Isso não acontece desassociado de um quesito muito importante: a competição.
Essa competição é acirrada, e não funciona como no jogo de frescobol, onde ambos jogadores ganham... Aqui a competição se dá de forma brutal, alguém terá de perder para que o outro ganhe. Para os estudantes já acostumados com esse ritmo louco de nossa sociedade, essa competição é vista como incentivadora, já que os fará buscar serem os melhores entre seus colegas para dentre eles se destacarem e ganharem mais espaços, verbas, bolsas, etc.
Entre os indígenas não funciona assim. Não há vantagens em ganhar ou perder, na verdade todos deveriam ganhar e aprender, então, eles se vêem forçados a mudarem inclusive suas concepções de valores para poderem sobreviver dentro dessas novas lógicas de poder.
Há de se pensar em tudo isso. Há de se pensar em como englobar esses saberes indígenas na Universidade sem que deles se roube o encanto.
Há de se pensar como incluir um aluno indígena sem que dele se exiga o desencanto...

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Lei 11.645/2008 - Abordagens para o conhecimento de uma outra história




A inclusão da história e cultura indígenas, assim como de outros grupos sociais e etnias, no currículo escolar brasileiro é um avanço, já que em termos da velha história 'oficial', engessada entre seus heróis e datas festivas relacionadas à feitos militares e políticos, que partiam apenas de uma via, ou seja, aquela que estava 'entronizada' no poder de Estado, hoje já não impera sozinha na construção da cidadania e do nacionalismo.
Hoje, outras vozes vêm compor o coro construtor de um conhecimento mais heterogêneo a respeito das diversas redes sociais, identitárias e etnicas que compuseram a criação de nosso país, bem como do próprio continente americano.
Mas, é preciso salientar que esse evento não surge isolado, nem vem a acontecer por benevolência do Estado ou algo parecido. Ele é fruto da insessante luta dos povos originários por adquirirem espaço e visibilidade dentro desta nação, que se construiu sobre seu território ancestral.
Lembrar que a América, e consequentemente o Brasil surgem a partir da conquista européia sobre outros povos que aqui já viviam a pelo menos 10.000 anos atrás, é pertinente para compreendermos também que estudar e ensinar a história indígena é estudar e ensinar a nossa história, a história do nosso continente.
Houve sempre, nos bancos escolares, a valorização da civilidade, vista esta como uma forma superior da organização social, e se partia do pressuposto que nós, ocidentais, herdeiros das tradições greco-romanas de formação social e do Direito, é que seriamos plenamente civilizados.
Outros povos, que partiam de preceitos sociais diferentes da herança européia, seriam selvagens, bárbaros, incivilizados e portanto, inferiores.
Essa idéia foi plenamente difundida nos bancos escolares, desde sua implantação na sociedade americana que surgia após a conquista, até os dias atuais.
As escolas modernas, surgem no século XX, trazendo ideiais positivistas, de progresso e de civilidade e superioridade da 'raça' branca, a partir da construção científica européia.
Os livros didáticos sempre trouxeram esses ideais muito bem ilustrados em suas páginas, apresentando alguns grupos sociais ou pessoas como fora do padrão de civilidade esperado.
Negros e índios apareciam em determinados períodos da história do Brasil colonial, como meros apêndices - os negros, escravizados, que trabalhavam sob jugo para os Senhores brancos, e os índios como indolentes e preguiçosos, eram indisciplinados demais e fugiam ao trabalho nas lavouras e engenhos de açucar.
Esse senso comum foi se criando e se enraizando nas mentes brasileiras, como se o fato do indígena não se deixar escravizar o tornaria indigno, preguiçoso, maculado (o que não é verdade, pois a própria história confirma que índios foram escravizados sim, muitos foram levados de suas aldeias como escravos e dessa forma participaram da construção das regiões mais desenvolvidas do país hoje - sul e sudeste, vide John Manuel Monteiro em seu livro Negros da Terra).
E quanto a escravização dos negros, que vinham forçados da África, esta aparecia como algo necessário - embora violento e brutal - ao desenvolvimento da Colônia, e portanto o Brasil devia seu crescimento economico aos escravos, porém, não valorizando devidamente o trabalho e a contribuição cultural desses povos que literalmente deram seu sangue nesta terra.
Aos índios sempre sobraram algumas páginas de curiosidades, onde se falavam nos seus 'costumes' de forma generalizada, sem contudo abordar o fato deles terem sempre lutado contra a ocupação européia de suas terras ancestrais. Este é um assunto bastante delicado e não considerado relevante nesse tipo de história, que tenta afirmar o poder dos dominantes e abafar as vozes dos que devem ser dominados.
A negação de um grupo humano, seja ele identitário ou social, sua invisibilização e inferiorização pelo senso comum e pela ciência dita 'moderna' - coloco esta expressão entre aspas, porque relativizo a categoria 'ciência' como sendo apenas o conhecimento hegemônico criado pelas sociedades ditas modernas (vide Bruno Latour em seu livro Jamais fomos Modernos) considerando as ciências das sociedades originárias ou tradicionais tão científicas quanto a das sociedades cristã-ocidentais - é uma forma eficaz para o extermínio físico dessas pessoas.
Atitudes desse tipo foram implementadas por partidos nazistas e fascistas e ainda hoje justificam atitudes brutais de eliminação etnica em muitos setores sociais. Ou seja, a discriminação e o preconceito são ensinados nos bancos escolares. E a escola, sejamos francos, é uma instituição disciplinadora dos corpos e mentes (vide Michel Foucault em seu livro Vigiar e Punir), nos moldes daquilo que Foucault chamou de 'poder', onde somos moldados pelos espaços que frequentamos e vivemos. Somos doutrinados de acordo com a ordem social vigente e reagimos à isso de forma passiva na maioria das vezes, sem nem nos darmos conta do poder que essas forças sociais exercem sobre nossos atos.
A mídia tem um poder avassalador na formação da opinião pública, e infelizmente os canais populares da mídia nem sempre apresentam as realidades de outras vozes que não aquelas que estão no poder (dominantes).
Reforçam, dessa forma, uma idéia equivocada sobre a existência de outras etnias e culturas no país, bem como auxilia no processo de exclusão social, quando aponta negativamente os movimentos sociais.
Há outras formas de informação midiática que apontam para outros lados, porém estas não têm uma repercussão tão intensa, já que a mídia 'alternativa' não atinge a massa popular, onde infelizmente reside a maioria dos escolares.
Fazer este balanço da forma como é ensinado na escola e através de outros veículos que formam nossa opinião a respeito da vida e do mundo em que vivemos, é uma maneira de mostrar como podemos nos deixar manipular pela ordem vigente. Mas, se quisermos olhar em volta, somos bastante capazes de perceber que o mundo em que vivemos é mais colorido e diversificado que nos vem sendo apresentado, e aí está a diferença: podemos e temos poder de mudar as coisas, basta querer ver e querer mudar.
Com a implantação no novas, que colocam em check o velho currículo escolar conteudista já podemos perceber algumas mudanças, embora estas ainda sejam tênues.
Com o ingresso de indígenas e afrodescendentes nas universidades, logo teremos profissionais com outras visões de mundo ingressando no mercado de trabalho e talvez isso já comece a fazer alguma diferença...
A esperança que um outro mundo seja realmente possível é o que me faz continuar trabalhando pra isso.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Rompendo os aramados que separam as fronteiras.....


Pois então, este texto é para me dar uma luz. Preciso de uma luz urgente para escrever sobre o ingresso dos estudantes indígenas na universidade. Mas, lembrando bem, não basta apenas dar possibilidades de ingressar, tem de haver recursos, condições favoráveis à permanência e bom aproveitamento dos cursos que estes meninos e meninas escolheram para mudarem suas vidas. E aí está a questão mais difícil de lidar: a mudança. A mudança de cidade, de estilo de vida, de amigos, de estrutura emocional. Essas pessoas saem de um mundo muito diferente do mundo vivido pela academia. Lá, nas suas aldeias, com suas familias, seus amigos - seus inimigos também, infelizmente...- eles têm segurança, eles conhecem o que os cerca. Aqui na academia não, é tudo novo, tudo diferente.... É exigido um comportamento 'aceitável' nas salas de aula, nos corredores, no bar... seu jeito simples, seu sorriso largo, sua fala calma se torna um motivo para a desconfiança dos colegas, professores e demais viventes que circulam nas academias da vida... Porque? Porque são índios. Essa marca que os torna diferentes e distantes dos demais cidadãos brasileiros. Mas, será que eles são tão diferentes assim? Será que porque falam uma lingua diferente do português quando estão em seus grupos eles não são tão iguais a mim ou a vocês que estão lendo este texto? Eles também falam nosso português, e muitas vezes, falam outros idiomas ameríndios também.... são poliglotas, portanto, e com certeza, falam mais linguas do que eu que escrevo essas linhas. No entanto, há quem os rotule de 'incapazes', pouco inteligentes, negligentes como estudantes... e outras coisas mais, para descaracterizar o seu direito de estar frequentando os bancos academicos no mesmo pé de igualdade que qualquer outro aluno de curso superior. Dificuldades? Ah, sim, eles tem muitas. Principalmente aqueles alunos que se aventuram pelas áreas da saúde, como cursos de medicina e enfermagem. Mas, pergunto: quem no primeiro ano de medicina não tem dificuldades com os termos, com a quantidade de leituras? O fato desses estudantes virem, na sua maioria, de uma escola pública, muitas vezes precária - pois as escolas indígenas não são bem estruturadas para dar suporte ao modelo que temos no ensino superior - não é levado em conta quando professores os classificam como alunos inferiores aos outros na sala de aula. Os estudantes indígenas vem pra Universidade com outras perspectivas, que não são as mesmas dos estudantes não-índios. A realidade deles é muito diferente da que um garoto ou garota que viveu na cidade sua vida inteira, que teve pais que os colocaram em bons colégios, e até fizeram cursinho pré-ENEN / Vestibular para ingressarem na universidade. Essas pessoas, muitas vezes vem de lugares bastante distantes das cidades. Tem, da mesma forma, uma trajetória de dificuldades financieras e psicológicas que o afastam do 'lugar-comum' do estudante universitário, já que essa realidade só está se apresentando para essas pessoas a muito pouco tempo. As noções e necessidades que trazem esses alunos para a universidade são tão diversas das que trazem os tradicionais estudantes que já desde muito ocupam as cadeiras escolares e universitárias no Brasil. Hoje temos essa realidade: indígenas que tem direito a vagas universitárias. Mas, não era assim há alguns poucos anos atrás. Essas pessoas, corajosas, lutadoras, conhecem uma realidade brasileira bem diversa da maioria dos alunos que estão na Universidade, e que sempre estiveram lá. A realidade de professores, acadêmicos, pesquisadores, que estão lá na Universidade ocupando seus gabinetes, suas salas de pesquisa, com seus computadores e equipamentos de alta tecnologia, desconhecem a realildade de uma comunidade indígena, com suas hortas, seus animais, sua mata, sua vida livre, porém com seus problemas, suas angústias, suas recusas... Pois, falamos aqui de pessoas que conhecem uma vida muito mais real do que muitos desses professores, falamos aqui de gente que já sofreu expulsão de suas terras, fome, exclusão, preconceitos de vários tipos. Essa gente brava, vem há mais de 500 anos defendendo seus direitos, sua identidade, sua terra, e só agora lhes é concedido o direito de estudarem as tecnologias dos 'brancos'. E essa tecnologia, essa ciência acadêmica vai ser colocada a disposição das suas comunidades. Nenhum aluno indígena vem pra universidade pensando somente nele, eles vem pensando em suas familias, em sua comunidade, em retornar com conhecimento a mais para ajudar lá na aldeia, ajudar nas demandas que se fazem tão necessárias e urgentes para melhorar a vida daquelas pessoas que os estão esperando para realizar coisas boas para eles. Os povos indígenas sempre foram denegridos pela história brasileira, que os apresentou como secundários e pouco ativos na formação de toda essa nação. Hoje eles vem reinvindicar seu lugar nessa história, e ocupar os lugares que lhes cabe na sociedade brasileira. Mas, o preconceito permanece muito enraizado, e os olhares sobre essas pessoas ainda os marginaliza, ainda os coloca numa patamar inferiorizado diante daquilo que é visto como o 'ser brasileiro, ser cidadão'. As ciências e conhecimentos de seus ancestrais, que ainda são utilizados e resolvem seus problemas nas suas terras - muitas vezes com mais eficácia do que muitos projetos cinetíficos implementados pelo Governo e que não dão bons resultados - não são reconhecidos pela academia como um tipo de 'fazer ciência', mas é visto sim como fetiches e crendices, não sendo levados à sério pelos notórios nomes da ciência acadêmica. Estes e tantos outros elementos nos levam a perceber que os estudantes indígenas que vem pra universidade tem tanto a nos ensinar quanto a aprender conosco. A questão está em o quanto estamos abertos - como eles estão - para esse novo aprendizado. Isto sim será um desafio para os cristãos - ocidentais modernos.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Não existe a História do 'Se'....


Lendo o texto do Veríssimo, sobre as versões de sim mesmo do personagem que ele retrata, fiquei pensando naquela velha história do 'se'... Se Hitler não tivesse sido eleito.... Se o Brasil não tivesse sido encontrado pelas naus portuguesas.... Se....
Se tantas coisas não tivessem acontecido... outras teriam...
E quem disse que seriam melhores ou poires? Apenas seriam diferentes e os rumos da história seriam outros... ou quem sabe... lá pelas tantas... algo aconteceria e os rumos seriam semelhantes ao que foram e são. As vidas das pessoas não são regidas pelo que elas poderiam ter sido, mas pelo que são e foram. Nossas escolhas são arbitrárias e assim fazemos nós mesmos a nossa história. Claro que podemos nos arrepender de coisas, achar que poderiamos ter feito melhor ou diferente... faz parte do aprendizado, para que posssamos crescer e mudar. Mas, jamais vamos mudar o passado.
Então pra que ele serve? Para mudar o futuro.
É no futuro que temos de colocar nossas energias e buscar o melhor pra nós e pro mundo. Se apegar aos 'ses' que não foram em nossa vida só nos faz parar e lamentar...e chorar...e não andarmos pra frente. Então, que se vamos adelante... Olhar o futuro, olhar a mudança como algo a ser conquistado e nunca, jamais lamentar o que não foi. Se não foi é por que não era pra ter sido mesmo. A escolha que fizemos foi esta, e se a fizemos vamos arcar com as consequências da coisa.... Há sempre um motivo lá na frente para que possamos sorrir, mesmo que no passado a gente tenha chorado. Algumas coisas do passado, quando não nos trazem alegrias, devem mesmo ser deixadas lá, no seu baú... para sempre... para lembrarmos de não repetirmos as mesmas escolhas... e partirmos para escolhas melhores.

VERSÕES DE MIM



por: Luiz Fernando Veríssimo

Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido.

Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número, (unzinho e eu ganhava a sena acumulada), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito sim, dito não, ido para Londrina, casado com a Doralice, feito aquele teste…

Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo para esquecer o que não fiz – aliás, o nome do bar é Imaginário – sentou um cara do meu lado direito e se apresentou:

- Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo
E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo.
-Por que? Sua vida não foi melhor do que a minha?
-Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei a seleção. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até que um dia.
-Eu sei, eu sei… disse alguém sentado ao lado dele.
Olhamos para o intrometido. Tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz do que nós. Ele continuou:

- Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.
- Como é que você sabe?
- Eu sou você, se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola como me mandei para o ataque com tanta perfeição que fizemos o gol da vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés de um atacante e não me atirar. Como era um herói, me atirei. Levei um chute na cabeça. Não pude ser mais nada. Nem propagandista. Ganho uma miséria do INSS e só faço isto: bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido nos pés do atacante.

Ele chutaria para fora. Quem falou foi o outro sósia nosso, ao lado dele, que em seguida se apresentou.

- Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Não faria diferença. Não seria gol. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo também. Fui vendido para o futebol europeu, por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio…

- E o que aconteceu? perguntamos os três em uníssono.
- Lembra aquele avião da VARIG que caiu na chegada em Paris?
- Você…
- Morri com 28 anos.
- Bem que tínhamos notado sua palidez.
- Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo…
- E ter levado o chute na cabeça…
- Foi melhor, continuou, ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado.
- Você deve estar brincando.
Disse alguém sentado a minha esquerda. Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado.
- Quem é você?
- Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.

Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do que a outra. As conseqüências de anos de decisões erradas, alianças fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração.

Olhei em volta. Eu lotava o bar.

Todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente. Comentei com o barman que, no fim, quem estava com o melhor aspecto, ali,era eu mesmo. O barman fez que sim com a cabeça, tristemente.
Só então notei que ele também tinha a minha cara, só com mais rugas.

- Quem é você? perguntei.
- Eu sou você, se tivesse casado com a Doralice.
- E..?

Ele não respondeu. Só fez um sinal, com o dedão virado para baixo.
Creio que a vida não é feita das decisões que você não toma, ou as atitudes que você NÃO teve, mas sim, aquilo que foi feito!

Se bom ou não, penso, é melhor viver do futuro que do passado!

Hoje eu sei que eu sou a melhor versao de mim mesmo!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

VIVER DESPENTEADA

Adoro ser uma mulher bem despenteada.....


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Hoje aprendi que é preciso deixar que a vida te despenteie,
por isso decidi aproveitar a vida com mais intensidade...
O mundo é louco, definitivamente louco...
O que é gostoso, engorda. O que é lindo, custa caro.
O sol que ilumina o teu rosto enruga.
E o que é realmente bom dessa vida, despenteia...
- Fazer amor, despenteia.
- Rir às gargalhadas, despenteia.
- Viajar, voar, correr, entrar no mar, despenteia.
- Tirar a roupa, despenteia.
- Beijar à pessoa amada, despenteia.
- Brincar, despenteia.
- Cantar até ficar sem ar, despenteia.
- Dançar até duvidar se foi boa idéia colocar aqueles saltos gigantes essa noite, deixa seu cabelo irreconhecível...

Então, como sempre, cada vez que nos vejamos
eu vou estar com o cabelo bagunçado...
mas pode ter certeza que estarei passando pelo momento mais feliz da minha vida.
É a lei da vida: sempre vai estar mais despenteada a mulher que decide ir no primeiro carrinho da montanha russa, que aquela que decide não subir.

Pode ser que me sinta tentada a ser uma mulher impecável,
toda arrumada por dentro e por fora.
O aviso de páginas amarelas deste mundo exige boa presença:
Arrume o cabelo, coloque, tire, compre, corra, emagreça,
coma coisas saudáveis, caminhe direito, fique séria...
e talvez deveria seguir as instruções, mas
quando vão me dar a ordem de ser feliz?
Por acaso não se dão conta que para ficar bonita
eu tenha que me sentir bonita...
A pessoa mais bonita que posso ser!
O único, o que realmente importa é que ao me olhar no espelho, veja a mulher que devo ser.
Por isso, minha recomendação a todas as mulheres:

Entregue-se, coma coisas gostosas, beije, abrace, dance, apaixone-se, relaxe, viaje, pule, durma tarde, acorde cedo, corra, voe, cante, arrume-se para ficar linda, arrume-se para ficar confortável!
Admire a paisagem, aproveite,
e acima de tudo,
deixa a vida te despentear!

O pior que pode acontecer é que, rindo frente ao espelho, você precise se pentear de novo...




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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Mulheres Imperfeitas....

Buenas.... uma pausa nas histórias de minhas tatoos....
Esse texto da Martha Medeiros nunca foi tão perfeito pra mim como nesse momento... Principalmente no quesito 'Aprenda a dizer NÃO!!!' e NÃO SE SINTA CULPADA POR DIZER NÃO!!!!.
Dizer não é preciso... para se ter uma vida melhor... acreditem!!!!

'Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.

Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o cardápio das refeições, cuido dos filhos, telefono sempre para minha mãe, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos e ainda faço as unhas e depilação!

E, entre uma coisa e outra, leio livros.

Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.

Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coi sinhas que operam milagres.

Primeiro: a dizer NÃO.

Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.

Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero.
Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.

Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros..

Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.

Você não é Nossa Senhora.

Você é, humildemente, uma mulher.

E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.

Tempo para fazer nada.

Tempo para fazer tudo.

Tempo para dançar sozinha na sala.

Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.

Tempo para sumir dois dias com seu amor.

Três dias..

Cinco dias!

Tempo para uma massagem..

Tempo para ver a novela.

Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.

Tempo para fazer um trabalho voluntário.

Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.

Tempo para conhecer outras pessoas.

Voltar a estudar.

Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.

Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.

Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.

Existir, a que será que se destina?

Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.

A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.

Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.

Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!

Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.

Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.

Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.

E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante'

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Um adorno Bororo


Buenas, continuando a falar sobre a cultura material impressa no corpo, cá estou eu novamente a mostrar minhas tattos. Esta foi a segunda imagem que resolvi gravar em meu corpo. É uma peninha, colorida que tem hoje lugar atrás da minha orelha direita. Essa peninha é a imagem de um adorno que os Bororo do Brasil Central usam no nariz, como se fosse um piercing.
O adorno para os Bororo tem significados próprios, que em verdade não saberei descrever aqui. Eles usam duas penas, uma em cada lado da narina, e geralmente estão com esses adornos em festas fúnebres, mas já os vi em outras ocasiões envergando tal objeto em seus corpos. Eu vi o desenho dessa pena num livro do COMIN, achei muito bonito e me agradou colocá-lo num lugar que acho interessante em mim - atrás da orelha...
Novamente o medo de enjoar de ver a imagem toda hora me fez escolher alí o lugar mais adequado à peninha Bororo.
Fui até o tatuador, com o desenho em mãos e assim, o imprimi em mim... Lá no estúdio do Pimenta, ele olhou, incorporou o desenho, redesenhou ele num papel e depois colocou sobre minha pele para daí começarmos a sessão da tatuagem propriamente dita...
Lembro que tive de ficar deitada numa cadeira de dentista, com a cabeça apoiada para ele ir desenhando e colorindo a peninha.
Do outro lado da rua, onde há uma linda igreja em estilo neo-gótico, também tinha um prédio de apartamentos, logo atrás da Igreja, onde dois caras olhavam a minha sessão de tatuagem. Acho que eles estavam interessados em ver minhas caras de dor, enquanto a maquininha do pimenta zunia atrás da minha orelha.
Bem, não posso dizer que esse lugar - atrás da orelha, onde tem muito osso - não doeu, porque foi bem incômodo tatuar algo ali, mas o resultado foi magnífico... a peninha se instalou maravilhosamente na minha cabeça, hehhehehe
.
Pra mim, essa tatto tem um significado mais ameno que a minha muiraquitã, que como falei antes tem o significado de proteção contra maus espíritos, para os Tapajós, e para mim, mantinha esse significado associado ao de representar um pouco os indígenas brasileiros, que pra mim são muito importantes, já que trabalho com essa temática.
A peninha vem nesse sentido também, porque faz parte de uma decoração corporal de um grupo ameríndio. Porém, ela não é tão representativa quanto o muiraquitã, mas a acho linda... e também me agrada como adorno corporal, embora numa dimensão diferente da que é usada pelos Bororo.
Eu transformei um objeto em desenho - em outro objeto...
Aqui não há uma pena real, com suas cores reais, mas sim a imagem dessa pena representada pelo desenho, e resignificada num adorno corporal fixado em meu corpo.
Os Bororo podem retirar o adorno deles, eu não... ela agora é parte de mim, está na minha pele.
Enfim... essas representações que manifestamos em nossos corpos, sejam elas nas dimensões e utilizando diferentes suportes, são modificações que fazemos para nos apresentar ao mundo...
Nossas identidades aí registradas e emitidas para nos siginificar dentro desse mundo...
Eu optei por ter imagens de bichos em meu corpo, assim, todas as minhas tattos são representações de animais, sejam eles representações reais ou figurativas, mas sempre animais....
Isso é uma forma de me identificar... com esses 'totens', com minhas próprias alegorias, e com a natureza de cada um desses seres que me representam e me identificam no mundo.
Bem... não vou me estender demais hoje, pois saio daqui agora para terminar a quinta tatto...
Hoje vou novamente me submeter ao zunido da maquininha do pimenta, que vai pintar a minha fênix....
Até a próxima, hehehehe

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Minha primeira Tatto...


Esta foi minha primeira tatuagem... tão linda... Esperei muito pra encontrar um bom tatuador, escolhi muito bem a imagem... e decidi que esta muiraquitã Tapajó era o que eu queria no meu corpo. Decidi que o lugar ideal seria nas costas... perto do pescoço, onde eu não ficasse vendo ela o tempo todo... Eu tinha medo que pudesse enjoar de ver a imagem todos os dias... depois descobri que amo tanto minhas tattos, que adoro ficar olhando pra elas, huahauauahuahua....
O muiraquitã, é um simbolo de proteção para os indígenas da amazônia, achei interessante essa definição e resolvi que ela me faria feliz, estando gravada em mim.
Isso nos demonstra que os significados das coisas estão intrinsecamente ligados aos nossos atos, desejos e espectativas humanas. As coisas, sejam elas imagens ou outros objetos, se comunicam conosco e nos comunicam aos outros. A imagem da muiraquitã logo remete ao seu significado original, como também aos significados que eu lhe dou, porque quando escolhi tatuar a imagem no meu corpo, escolhi esta por ser indígena, e isto remete ao meu trabalho, ao tipo de 'objeto' no qual me debruço para escrever e produzir conhecimento acadêmico. Mas, muito mais que isso, a relação de ter uma figura indígena em meu corpo, está muito mais relacionada ao fato de eu ser engajada na causa dos indígenas brasileiros, e isto me representar como uma militante, além de simplesmente um pesquisadora. Escolher uma figura amazônica ao invés de uma figura dos Guarani - que é o povo com o qual trabalho - teve muito mais há ver com o fato de relacionar o siginificado da muiraquitã, da proteção que ela remete para o povo Tapajó. Ainda não sei se vou tatuar uma figura Guarani em mim... é algo em que penso, mas ainda não encontrei nenhuma imagem que me cative e que eu queira colocar em meu corpo. Aliás... o nosso corpo pode ser visto como cultura material, dessa maneira, as modificações que faço nele, são propositais e intencionais. Dou ao meu corpo os significados que quero representar, assim, o faço ser uma forma de identidade para ser reconhecida pelos outros... As tatuagens formam parte dessa identidade e nelas me represento e me comunico com outras pessoas. Posso causar impacto, choque, admiração, repulsa e tantos outros sentimentos, pelo simples fato de que as imagens que eu tenho representadas estão em constante comunicação com o mundo a minha volta... e isso é bastantre instigante...
Buenas... deixo aqui a minha amada muiraquitã pra deleite dos amigos que frequentam este blog...