quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Um adorno Bororo


Buenas, continuando a falar sobre a cultura material impressa no corpo, cá estou eu novamente a mostrar minhas tattos. Esta foi a segunda imagem que resolvi gravar em meu corpo. É uma peninha, colorida que tem hoje lugar atrás da minha orelha direita. Essa peninha é a imagem de um adorno que os Bororo do Brasil Central usam no nariz, como se fosse um piercing.
O adorno para os Bororo tem significados próprios, que em verdade não saberei descrever aqui. Eles usam duas penas, uma em cada lado da narina, e geralmente estão com esses adornos em festas fúnebres, mas já os vi em outras ocasiões envergando tal objeto em seus corpos. Eu vi o desenho dessa pena num livro do COMIN, achei muito bonito e me agradou colocá-lo num lugar que acho interessante em mim - atrás da orelha...
Novamente o medo de enjoar de ver a imagem toda hora me fez escolher alí o lugar mais adequado à peninha Bororo.
Fui até o tatuador, com o desenho em mãos e assim, o imprimi em mim... Lá no estúdio do Pimenta, ele olhou, incorporou o desenho, redesenhou ele num papel e depois colocou sobre minha pele para daí começarmos a sessão da tatuagem propriamente dita...
Lembro que tive de ficar deitada numa cadeira de dentista, com a cabeça apoiada para ele ir desenhando e colorindo a peninha.
Do outro lado da rua, onde há uma linda igreja em estilo neo-gótico, também tinha um prédio de apartamentos, logo atrás da Igreja, onde dois caras olhavam a minha sessão de tatuagem. Acho que eles estavam interessados em ver minhas caras de dor, enquanto a maquininha do pimenta zunia atrás da minha orelha.
Bem, não posso dizer que esse lugar - atrás da orelha, onde tem muito osso - não doeu, porque foi bem incômodo tatuar algo ali, mas o resultado foi magnífico... a peninha se instalou maravilhosamente na minha cabeça, hehhehehe
.
Pra mim, essa tatto tem um significado mais ameno que a minha muiraquitã, que como falei antes tem o significado de proteção contra maus espíritos, para os Tapajós, e para mim, mantinha esse significado associado ao de representar um pouco os indígenas brasileiros, que pra mim são muito importantes, já que trabalho com essa temática.
A peninha vem nesse sentido também, porque faz parte de uma decoração corporal de um grupo ameríndio. Porém, ela não é tão representativa quanto o muiraquitã, mas a acho linda... e também me agrada como adorno corporal, embora numa dimensão diferente da que é usada pelos Bororo.
Eu transformei um objeto em desenho - em outro objeto...
Aqui não há uma pena real, com suas cores reais, mas sim a imagem dessa pena representada pelo desenho, e resignificada num adorno corporal fixado em meu corpo.
Os Bororo podem retirar o adorno deles, eu não... ela agora é parte de mim, está na minha pele.
Enfim... essas representações que manifestamos em nossos corpos, sejam elas nas dimensões e utilizando diferentes suportes, são modificações que fazemos para nos apresentar ao mundo...
Nossas identidades aí registradas e emitidas para nos siginificar dentro desse mundo...
Eu optei por ter imagens de bichos em meu corpo, assim, todas as minhas tattos são representações de animais, sejam eles representações reais ou figurativas, mas sempre animais....
Isso é uma forma de me identificar... com esses 'totens', com minhas próprias alegorias, e com a natureza de cada um desses seres que me representam e me identificam no mundo.
Bem... não vou me estender demais hoje, pois saio daqui agora para terminar a quinta tatto...
Hoje vou novamente me submeter ao zunido da maquininha do pimenta, que vai pintar a minha fênix....
Até a próxima, hehehehe

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Minha primeira Tatto...


Esta foi minha primeira tatuagem... tão linda... Esperei muito pra encontrar um bom tatuador, escolhi muito bem a imagem... e decidi que esta muiraquitã Tapajó era o que eu queria no meu corpo. Decidi que o lugar ideal seria nas costas... perto do pescoço, onde eu não ficasse vendo ela o tempo todo... Eu tinha medo que pudesse enjoar de ver a imagem todos os dias... depois descobri que amo tanto minhas tattos, que adoro ficar olhando pra elas, huahauauahuahua....
O muiraquitã, é um simbolo de proteção para os indígenas da amazônia, achei interessante essa definição e resolvi que ela me faria feliz, estando gravada em mim.
Isso nos demonstra que os significados das coisas estão intrinsecamente ligados aos nossos atos, desejos e espectativas humanas. As coisas, sejam elas imagens ou outros objetos, se comunicam conosco e nos comunicam aos outros. A imagem da muiraquitã logo remete ao seu significado original, como também aos significados que eu lhe dou, porque quando escolhi tatuar a imagem no meu corpo, escolhi esta por ser indígena, e isto remete ao meu trabalho, ao tipo de 'objeto' no qual me debruço para escrever e produzir conhecimento acadêmico. Mas, muito mais que isso, a relação de ter uma figura indígena em meu corpo, está muito mais relacionada ao fato de eu ser engajada na causa dos indígenas brasileiros, e isto me representar como uma militante, além de simplesmente um pesquisadora. Escolher uma figura amazônica ao invés de uma figura dos Guarani - que é o povo com o qual trabalho - teve muito mais há ver com o fato de relacionar o siginificado da muiraquitã, da proteção que ela remete para o povo Tapajó. Ainda não sei se vou tatuar uma figura Guarani em mim... é algo em que penso, mas ainda não encontrei nenhuma imagem que me cative e que eu queira colocar em meu corpo. Aliás... o nosso corpo pode ser visto como cultura material, dessa maneira, as modificações que faço nele, são propositais e intencionais. Dou ao meu corpo os significados que quero representar, assim, o faço ser uma forma de identidade para ser reconhecida pelos outros... As tatuagens formam parte dessa identidade e nelas me represento e me comunico com outras pessoas. Posso causar impacto, choque, admiração, repulsa e tantos outros sentimentos, pelo simples fato de que as imagens que eu tenho representadas estão em constante comunicação com o mundo a minha volta... e isso é bastantre instigante...
Buenas... deixo aqui a minha amada muiraquitã pra deleite dos amigos que frequentam este blog...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

As tattos e seus significados....



Vou fazer aqui o início de uma série de postagens falando de Tatuagens...
Sim... tatuagens... minhas amadas tattos..
Estou na quinta figura em meu corpo, e feliz com elas... muito feliz...
é maravilhoso sentir os significados que elas tem na minha vida.. cada uma representa algo importante e mudanças.
São um tipo de cultura, a cultura material da tatuagem... quando escolho a figura a ser desenhada... quando escolho as cores... quando escolho o estúdio onde serão feitas... tudo isso faz parte de uma cultura.
Quando fazia minha quinta tatto, pensava nisso encostada na cadeira, já nem sentindo mais meus pés de tanto tempo que estava naquela posição...
Isso é cultura material...eu escolhi... eu procurei alguém capacitado pra fazer, em que depositei minha confiança... e estou mudando meu corpo ao colocar nele esta figura....
Os significados de cada um daqueles desenhos em meu corpo... os momentos em que foram feitos... os porques de estarem alí e naqueles lugares específicos... tudo isso passando por minha cabeça enquanto a maquininha do Pimenta me desenhava as costas....
É interessante, pois muita gente pergunta sobre a dor.... é claro que dói... as vezes dói bastante... tem partes sensíveis que causam dor... Mas, o que não dói na vida da gente? As vezes existem coisas menos prazerosas do que o belo desenho da tatto, que dói muito... que machuca bastante... e a gente nem reclama não é mesmo?
As dores as vezes podem ser amenizadas por outras dores.. dores que dão prazer...
Há dores que vem da alma, as pessoas nem vêem e como não causa ferida externa, não perguntam se dóis....
As dores da tatto são totalmente aceitáveis... e dão prazer.. um prazer de mudança... um prazer de algo belo... de arte...
Há outras dores maiores... com certeza...
Mas, vamos voltar a cultura da tatuagem... essa maravilhosa cultura de quem as tem e de quem as faz...
Tô namorando minha novas tattos... tão lindas.... e a última ainda nem tá acabada... falta pintar...
Lá vou eu na próxima semana avaliar e ver se já dá pra terminar a pintura da minha Fênix renascedora....

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

QUANDO CAEM AS MÁSCARAS...


Há pessoas que passam a vida representando personagens. Em realidade, todos nós nos representamos e apresentamo-nos aos outros como algo, há, no entanto, aqueles que representam a si mesmo como outros, aqueles que usam as máscaras mais diversas para se esconderem e esconder dos outros sua própria face. Esses são os perigosos, e as vezes são perigosos pra si mesmos, pois acabam por nunca descobrirem quem realmente são, passando a vida a representar personagens e personalidades absorvidas de outros.

Há muitas pessoas assim pelo mundo, há muita gente perdida dentro de si mesma que não encontra sua face ou tem medo dela no espelho.

Vou contar uma história, um conto, uma fábula.... Nela há um Rei, nobre, belo e bondoso. Esse Rei circula pelas ruas dando atenção a todos que encontra. Ele é muito amado pelos súditos, muito querido por todos devido a sua beleza e bondade.

No entanto, por detrás da capa e da bela fisionomia do Rei, se esconde um Bufão. Este não é nobre.... Infelizmente nasceu nas ruas, foi maltratado pela vida e acabou ocupando o cargo de Bufão na corte do Rei... e aos poucos, esse Bufão, cheio de rancores pela vida dura e pelos seus traumas, ocupou o lugar do Rei, travestindo-se como Rei... O Rei verdadeiro desapareceu a tempos... ninguém sabe exatamente como nem quando... ele sumiu do castelo e nunca mais foi encontrado. Porém o Bufão, rancoroso e amargo, tomou para si as roupas do Rei, vestindo-se e comportando-se em público como o Rei. Assim, ele engana a todos, se faz passar por nobre e belo, enquanto na realidade, no escuro do quarto de dormir, ele é apenas um Bufão, torto, amargurado e mau.

Esse Rei / Bufão apresenta-se como nobre a todos, inclusive dentro da própria corte, e dessa forma ninguém sente a falta do verdadeiro Rei, pois acreditam que ele ainda está vivo, ainda está circulando entre seus súditos... Porém, o Bufão / Rei utiliza os gestos nobres para se fazer amar, utiliza das máscaras do Rei verdadeiro para se fazer belo, utiliza da capa e do cetro para impor respeito e sabedoria aos outros...

Mas, como esse Rei / Bufão, não é nobre de verdade, ele as vezes tropeça na capa e faz injustiças. Deixa a máscara cair um pouco e mostra uma carranca feia e amargurada que assusta as pessoas...

No entanto, ele cuida muito para que esses pequenos lapsos não façam com que se descubra sua verdadeira identidade, ele cuida para que ao seu lado estejam os mais nobres cavalheiros e damas da corte para que os seus súditos o vejam como bom e nobre.. Apenas, nas entranhas do seu quarto, no seu submundo, ele tira a fantasia e se olha no espelho.... E ali, sozinho, ele chora. Ele não quer ser Bufão, ele quer ser Rei...mas no seu íntimo, ele não consegue ter a nobreza do Rei verdadeiro, ele é o Bufão, ele é amargo e feio... Então, ele se põe a proteger aqueles que são como ele, amargos e feios, sujos e maus, aqueles que rastejam nas ruas e amaldiçoam àqueles que são nobres e bons... Mas, quando o Rei / Bufão protege essas criaturas, ele o faz como se esse ato o fizesse bondoso e caridoso, não por que ele se identifica com esses seres amaldiçoados... Isso é a forma como ele transfere aos seus súditos e à corte esse seu ato de cordialidade com a mais baixa ralé...

Porém, no fundo de seu coração ele sabe que esse ato não é caridade, nem bondade, ele apenas se reconhece nessas criaturas, pois é igual a eles... é feito da mesma matéria, esses seres são seus pares, são seus iguais, e entre eles, o Bufão / Rei, pode ser apenas Bufão... pode deixar de lado a nobreza fingida, a capa grande demais para o seu corpo disforme, a coroa que pesa em sua cabeça grande demais, o cetro que impõe justiça... Ali, ele se desveste, ali ele se olha como um paria... ali ele não precisa fingir, nem fugir de sua condição amaldiçoada.

Mas, ele não quer admitir que é assim... ele apenas foge de vez em quando pra seu submundo pra se sentir menos pesado...

Ele quer ser Rei, ele quer seu público, ele quer ser nobre e amado... e ele finge... e ele foge... e ele não se olha no espelho para não ter de enfrentar seu próprio rosto a luz do dia claro.

E assim, ele segue enganando, a si mesmo e aos outros que convivem com ele, que pensam e acreditam que ele é Rei e nobre, e que depositam nele sua confiança, até ele a trair, e ainda assim fazer acreditar que a sua traição foi por nobre causa, e que a razão e a justiça são sua aliadas...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sábias Palavras...


Não sei se o texto é realmente dele, pois muitas coisas que circulam na internet acabam sendo atribuidas a ele... Mas sendo ou não, o texto é muito educativo. Se muitos homens finalmente aprendessem e colocassem em prática esses ensinamentos, nós mulheres seriamos mais felizes e bem tratadas. Pois, já que na cabeça masculina, a sensibilidade não é uma qualidade desenvolvida, quem sabe se eles começarem a pensar na gente como 'algo que deve ser preservado na natureza' - já que agora a moda de ser politicamente ecológico prevalece, e muitos homens são criaturas que gostam de andar na moda - principalmente se essa moda tiver um 'quê' de militância, pois além da sensibilidade (ou da falta dela) outro quesito que não consta nas qualidades maculinas é a originalidade e personalidade própria, pois eles sempre andam como os amigos andam, fazem o que os amigos fazem, e 'lutam' pelo que os amigos 'lutam'.... Então, já que é assim... aprendam com o Veríssimo... e tentem ser mais cuidadosos conosco...

Um homem Inteligente Falando das Mulheres
O desrespeito à natureza tem afetado a sobrevivência de vários seres e entre os mais ameaçados está a fêmea da espécie humana.
Tenho apenas um exemplar em casa, que mantenho com muito zelo e dedicação, mas na verdade acredito que é ela quem me mantém. Portanto, por uma questão de auto-sobrevivência, lanço a campanha 'Salvem as Mulheres!'
Tomem aqui os meus poucos conhecimentos em fisiologia da feminilidade a fim de que preservemos os raros e preciosos exemplares que ainda restam:

Habitat
Mulher não pode ser mantida em cativeiro. Se for engaiolada, fugirá ou morrerá por dentro. Não há corrente que as prenda e as que se submetem à jaula perdem o seu DNA. Você jamais terá a posse de uma mulher, o que vai prendê-la a você é uma linha frágil que precisa ser reforçada diariamente.

Alimentação correta
Ninguém vive de vento. Mulher vive de carinho. Dê-lhe em abundância. É coisa de homem, sim, e se ela não receber de você vai pegar de outro. Beijos matinais e um 'eu te amo' no café da manhã as mantém viçosas e perfumadas durante todo o dia. Um abraço diário é como a água para as samambaias. Não a deixe desidratar. Pelo menos uma vez por mês é necessário, senão obrigatório, servir um prato especial.
Flores
Também fazem parte de seu cardápio, mulher que não recebe flores murcha rapidamente e adquire traços masculinos como rispidez e brutalidade.

Respeite a natureza
Você não suporta TPM? Case-se com um homem. Mulheres menstruam, choram por nada, gostam de falar do próprio dia, discutir a relação. Se quiser viver com uma mulher, prepare-se para isso.

Não tolha a sua vaidade
É da mulher hidratar as mechas, pintar as unhas, passar batom, gastar o dia inteiro no salão de beleza, colecionar brincos, comprar muitos sapatos, ficar horas escolhendo roupas no shopping. Entenda tudo isso e apoie.


Cérebro feminino não é um mito
Por insegurança, a maioria dos homens prefere não acreditar na existência do cérebro feminino. Por isso, procuram aquelas

que fingem não possuí-lo (e algumas realmente o aposentaram!). Então, aguente mais essa: mulher sem cérebro não é mulher, mas

um mero objeto de decoração. Se você se cansou de colecionar bibelôs, tente se relacionar com uma mulher. Algumas vão lhe mostrar que têm mais massa cinzenta do que você. Não fuja dessas, aprenda com elas e cresça. E não se preocupe, ao contrário

do que ocorre com os homens, a inteligência não funciona como repelente para as mulheres.

Não faça sombra sobre ela
Se você quiser ser um grande homem tenha uma mulher ao seu lado, nunca atrás. Assim, quando ela brilhar, você vai pegar um bronzeado. Porém, se ela estiver atrás, você vai levar um pé-na-bunda.

Aceite: mulheres também têm luz própria e não dependem de nós para brilhar. O homem sábio alimenta os potenciais da parceira e os utiliza para motivar os próprios. Ele sabe que, preservando e cultivando a mulher, ele estará salvando a si mesmo...

É, meu amigo, se você acha que mulher é caro demais, vire gay.
Só tem mulher quem pode!


Luiz Fernando Veríssimo

domingo, 24 de outubro de 2010

Lágrimas e dor...


Ninguém deve amar com a alma. Pois o amor pode ser um sentimento venenoso que toma conta da alma e se fusiona a ela. Quando o amor e a alma se combinam e este se corresponde com outro amor de alma o paraíso pode ser sentido num abraço, num beijo, num carinho... mas quando apenas uma alma é tomada pelo amor, ela corre riscos.

Eu cometi esse erro. Eu deixei o amor infectar minha alma. Eu permiti que ele a tomasse e o abriguei nela, e hoje ele a mata, como um vírus que ficara dormente e agora se manifesta.

Pensei que pudesse curar, lavar minha alma, me livrar do amor e seguir em frente, curada.

Me enganei, ninguém que ame com a alma sobrevive. Estou dilacerada.

Meu corpo dói, meu peito tem agora um imenso buraco e a dor é quase insuportável. Tento suportá-la, tento segurar meu peito para que o buraco pare de se abrir.

Minha alma sangra, meus pés tropeçam no sangue que escorre dela. Minha garganta se fecha com o sangue da alma e minha respiração falha.

Tenho febre, estou sentindo meu corpo tremer de frio e o suor escorre no pescoço e molha o cabelo...

O amor é um vírus, uma doença, estou doente e me sinto fraca, minha alma morre aos poucos, sangrando muito.

Ninguém deve amar com a alma, pois para matar o amor tem de matar a alma também. Tentei matar o amor sem atingir a alma, mas não consegui, foi pior, agora minha alma sangra cheia de feridas e cortes profundos.

Quando se ama com a alma não há saída, não há cura....

Suporto a dor enquanto vejo minha alma morrer...

Escrevi isto as 02:28h, quando a febre não me deixava dormir.

São 03:26h. Não consigo dormir. A dor não me deixa dormir. Tenho frio, minha cabeça dói.

Penso em tudo que vivi... penso... penso... não consigo parar.

Porque a vida é assim? Porque tudo desmorona exatamente quando tudo deveria dar certo?

Agora era para tudo dar certo... agora...

Buscamos tanto, lutamos tanto e quando conseguimos, tudo se acaba...

Tô chorando... chorando o fim de algo lindo... Era pra ter sido lindo...

O vazio é imenso... a solidão é tão triste... estou tão triste... Sinto vontade de sair do mundo, sumir, abandonar tudo, desaparecer...

Se pudesse apagava minha mente, apagava minha vida...

Não lavei a alma, eu a matei, eu a estou matando...

Por favor, alguém me salve... a dor é insuportável...

Não se pode exigir o amor de alguém, quando se ama sozinho tudo é dor... tudo é vazio...

Não posso exigir ser amada por quem já nada sente por mim... isso não é uma cobrança, é apenas desabafo... preciso falar, senão vou explodir... vou....

A dor é grande demais, por que amo demais....amei demais... amei com minha alma, com meu corpo, com meu ser....

Mas, agora tudo se foi... Eu não tenho mais a quem dar o meu amor... ele não é mais aceito, não é mais correspondido.

Onde errei? Onde erramos?

Quisemos tudo e conseguimos nada.

Carreira, dinheiro, estabilidade??? Pra que?

Perdi o mais importante, perdi a razão de tudo...

Eu não devia estar escrevendo isto aqui. Não devia me expor... mas sou assim... passional.

Preciso desabafar, preciso gritar pro mundo a minha dor, pra ver se consigo suportá-la melhor.

Busco força na minha pobre alma dilacerada e não consigo encontrar... Ela está morrendo, junto com o amor que tento matar.

Porque tenho de ser tão intensa? Porque tenho sempre que me entregar inteira?

Agora estou em pedaços, esfacelada...

Não há mais nada por que lutar, não há mais nada a fazer... não há mais o amor correspondido. Tenho de suportar a dor e sobreviver.

É duro perceber o mundo da gente se transformar em pó, é duro descobrir que não fazemos mais parte do mundo de quem se ama. Nossos mundos se separaram, se afastaram em algum momento que não percebemos e agora tudo se foi, não há mais um universo conjunto, só o vácuo...

Eu grito sozinha nesse vácuo, pedindo socorro... mas não há quem me escute, não há mais nada além da dor.

São 07:13h, saio da cama onde passei a noite mais triste de minha vida. Insone e chorando. As lágrimas são meu primeiro café da manhã. Ontem não tive fome e hoje continuo sem ela. Devo forçar minha garganta a engolir algo, pra não adoecer mais do que já estou... estou sozinha...sozinha e triste com minha dor.

O mais aterrador desta dor é pensar que poderia ter sido lindo, pensar em tudo que se perdeu, pensar que pudemos ser felizes e estamos perdendo a chance.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Retomando.... e com raiva...


Faz horas que não apareço por estas bandas... ando voando as tranças por outros lados e trabalhando duro...

Mas, não abandonei a Flor de Miosótis não... cá estou de volta. Afinal, se abandonar a bela florzinha sobra o que para me deliciar neste mundo cruel?

Estou mais uma vez enojada com as peripécias da Direita Raivosa - e nem sei por que perco meu tempo ficando com nojo, pois eles só cumprem o seu dever de raivosos, e fazem o que uma Direita Raivosa tem de fazer né não!!!??

Agora a FARSUL e sua Corte se reúne pra tentar desfazer os direitos adquiridos pela Constituição Federal, que diz que os povos indígenas, quilombolas e demais minorias étnicas tem direito a territorios próprios, respeito a sua cultura e língua.

É realmente de enojar, ouvir um filósofo, como o Sr. Rosenfield, dizer que os índios devem se 'aculturar' de uma vez por todas e serem 'assimilados' para se tornarem cidadãos de fato...

Que que é isso gente? Onde esse Sr. está vivendo? Na década de 1930?

Esses conceitos estão mais do que defasados.... não se fala mais nisso há anos!!!

Hoje a multiculturalidade já é um fato. As diferenças etnicas e culturais no Brasil são fato e são festejadas...

Essa gente quer uma nova frente colonialista?

Na verdade quer continuar a matar 'índios bravos' e fazer 'guerras justas' para apreensão daqueles 'selvagens' que não se adaptam não é mesmo?

Meu repúdio a toda essa gente que não sabe viver em paz...

Meu repúdio a todos esse 'cães' que querem rasgar a Constituição e com certeza também devem querer engavetar alguns papéis que os deixaria bem constrangidos...

Esses novos 'Golberys'... e seus 'Fleurys' me dão medo...

Pior que tem gente que lhes dá ouvidos.. e pior que tem mais gente repassando essas idéias estapafurdias como se fossem a solução dos problemas do mundo...

Pra esse aí o paredão de fuzilamento seria pouco....

Deêm uma olhada nisto:

http//:povosindigenasrs.wordpress.com


domingo, 11 de outubro de 2009

Coisinhas de surf... cultura material e identidades....


Engraçado, estava a ler um texto que há tempos passei pra um aluno, na disciplina de antropologia que ministrava na FACOS, onde os autores, Diego Moritz Andrade e Nicolas Caballero Lois, (o texto chama-se: REMANDO PARA O SUCESSO: O Marketing esportivo através do surfe) ambos cursando uma especialização em marketing, apresentavam o surf e a indústria do surf como portenciais para a indústria e o marketing.

Meu aluno, na época, escrevia um artigo a meu pedido, para a finalização da disciplina, e seu tema era exatamente o surf, e não apenas o esporte, mas a cultura do surf no Litoral Norte do Rio Grande do Sul. Ele pesquisava os surfistas das praias do Litoral Norte, suas expectativas, as diferenças de surfar naquele mar gaúcho, onde as ondas são quebradas e o mar aberto com ventos constantes proporcionam um tipo específico de praticantes, diferenciados dos catarinenses que têm uma paisagem mais apropriada para a prática do esporte. Mas, que assim mesmo, esses surfistas gaúchos não se rendiam as boas ondas do Estado vizinho, e assim mantinham uma identidade própria e uma cultura do surf ligada a essas paisagens vistas como 'bravias', então sendo tipos mais 'machos', corajosos e destemidos por enfrentarem esse mar pouco amistoso....

Passei o texto citado acima para meu aluno, pois este contém um histórico - um tanto simplificado, mas em bom termo - das práticas do surf, e como este esporte depois de discriminado por muito tempo, foi ocupando gradualmente um espaço na mídia e principalmente criando uma cultura onde a moda e os objetos ligados ao surf foram sendo incorporados por um público cada vez maior, que envolve não apenas aqueles que praticam tal esporte, mas também adeptos e simpatizantes de todas as idades e genêros...

Agora, relendo o tal texto, me deparei com mais alguns elementos que me chamaram a atenção: os objetos falando de história.

Nossa, como os objetos estão presentes na história do surf e de seus praticantes.... eles contam a história, sem eles não haveria história.

Desde os velhos tempos, quando nativos das ilhas do Pacífico deslizavam sobre as ondas em cima de tábuas, e assim marcavam sua identidade, já que isto não era feito por esporte como hoje, mas era um ato de status, era uma atividade relacionada a nobreza local dessas ilhas, e marcava o lugar social dos praticantes.... bem como tinha significados rituais ligados a fertilidade.

Já nesse tempo, os objetos estavam ligando pessoas, agindo e interagindo nas práticas culturais e sociais dessas pessoas.

Outros significados foram sendo incorporados a velha prancha de madeira, com a advento da colonização européia nas ilhas... a prática do surf se ampliou e ganhou novos adeptos... novas coisas foram sendo incorporadas ao seu aparato de significados e objetos....

Hoje, um esporte, e mesmo assim recheado de significados multiplos. Mais objetos indicam a sua prática e a sua ideologia. Hoje, roupas, música, cortes de cabelo, posturas, adereços, enfim... uma gama incrivelmente grande de objetos e substâncias estão relacionadas à pratica do surf, ou simplesmente a um grupo de pessoas que se identificam com as paisagens do mar, da praia, do calor do sol....

Isso tudo 'fala' uma história... é cultura, feita material....

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O Contágio das matas continua....


Incrível como as notícias aparecem e depois desaparecem da mídia!!!

Em Julho de 2008, esta matéria da Carta Capital chamou a atenção, por trazer denúncias tão graves a respeito da atuação de ações missionárias junto a povos indigenas que vivem em pontos remotos da Amazônia. Havia na época um mandato de expulsão desses missionários da área indígena... e deveria também haver algum tipo de processo para esclarecer os atos criminosos que estavam sendo acusados.

No entanto, neste ano de 2009, nada mais se sabe sobre o caso... Será que a Jocum saiu da área Sorowahá?

Não sei, mas que eles continuam no Brasil isso sim... inclusive atuando em outras áreas indígenas no norte do páis.

O gasoduto Urucu- Porto Velho ainda está sob diligencia... a Petrobrás insiste em dizer que mesmo atingindo áreas de preservação da Amazônia, não haverá dano ambiental?!!!

A FUNAI e FUNASA, continuam inoperantes... (nenhuma novidade até aqui)

E quanto ao famigerado filme que apresenta o infanticídio na aldeia Sorowaha, (divulgado amplamente pelos missionários da Jocum e apresentando os índios como criminosos) este ainda causa discussões polêmicas e faz aumentar o preconceito da sociedade cristã-ocidental em relação aos indígenas, vistos como selvagens.

Infelizmente, parece que houve um barulho para conter a ação desses missionários dentro das aldeias indígenas, mas não passou de barulho mesmo... eles continuam aí, os indígenas atacados por eles continuam sofrendo a ação dominadora dessas entidades que ainda hoje percebem as diferenças socio-religiosas como demoniacas e animalescas... a catequese forçada continua sendo a forma básica de atuação e desestruturação social...

Ainda vivemos num país colonial....


CARTA CAPITAL


Contágio nas matas

Amazônia - Há cinco anos, o Brasil tenta tirar uma ONG dos EUA de áreas indígenas


Por Felipe Milanez


Numa área pouco povoada entre os rios Purus e Juruá, dois grandes afluentes da margem direita do Amazonas, próximo à cidade de Lábrea, a aldeia suruwahá vive um drama que ameaça levá-la à extinção.

Localizados em meio a um mosaico de 24 terra indígenas, próximo ao gasoduto Urucu-Porto Velho, os suruwahá têm convivido com uma onda de suicídios atribuída ao contato com os brancos. Diante da ausência do Estado, eles dependem exclusivamente de uma missão evangélica norte-americana, a Jocum (Jovens com uma Missão), que há anos mantém contato com os índios, levando a "palavra do Senhor".

Há mais de cinco anos o Ministério Público e a Funai tentam retirar os missionários, a quem atribuem uma série de ilegalidades. Documento interno da Funai, ao qual Carta Capital teve acesso, intitulado Missão: o veneno lento e letal dos suruwahá, reúne graves denúncias contra a Jocum. Assinado pelo indigenista Antenor Vaz, da Coordenação Geral de Índios Isolados da Funai, acusa a missão de proselitismo religioso, evangelização e desestruturação da comunidade suruwahá, hoje às voltas com uma onda de suicídios.

Entre as acusações, a de escravizar indígenas, extração ilegal de sangue dos índios, contrabando de sementes, construção de pistas de pouso clandestinas, uso de radioamador pirata, venda ilegal de madeira, remoção de indígenas de seu território sem autorização da Funai, adoção suspeita de crianças, realização de expedições veladas em busca de aborígenes isolados e o uso indevido de imagens dos suruwahá. Também é acusada de incitar os índios contra os representantes do Estado brasileiro, no caso a Funai e Funasa. Os funcionários das duas fundações têm sido ameaçados de morte.

"É uma atuação muito complicada. Eles fazem o que querem sem prestar contas a ninguém", afirma o presidente em exercício da Funai, Aloysio Guapindaia. Os missionários são os únicos a falar a língua dos suruwahá. E resistem a sair com o argumento de que os índios desejam sua companhia. A Jocum, junto com outras entidades evangélicas, como a Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB), e a Sociedade Internacional de Lingüística atuam intensamente na maioria dessas aldeias. Contam com a logística necessária para fazer a mediação cultural com os índios e controlar o fluxo de pessoas. E também com o respeito dos nativos, complicando o trabalho dos funcionários da Funai, que estão longe de deter o controle do território dos suruwahá. Na verdade, até bem pouco tempo atrás, a Funai contava com apenas um funcionário para atender toda a região. Recentemente, contratou-se outro. Em maio de 2003, o então procurador da República no Amazonas Sérgio Lauria Ferreira determinou a expulsão dos missionários da Jocum e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ligado à Igreja Católica. Até hoje a Jocum se nega a sair e impõe condições. A ONG evangélica também está na mira da Secretaria Nacional de Justiça, do Ministério da Justiça. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) considera que a Jocum "ameaça identidade étnica e interfere na 'cosmodivisão' dos índios, por introduzir rituais religiosos e entidades místicas estranhas à cultura suruwahá.

Presidente da Jocum, Bráulia Ribeiro nega as acusações, ao justificar por que se recusa a sair da terra indígena. "Somos parte da família dos índios. Nosso papel é promover o bem-estar. Não pregamos religião, mas os índios têm o direito de ouvir e escolher se querem se evangelizar. A pregação é pelo relacionamento, no convívio", afirma a missionária. A Jocum consegue manter uma equipe na aldeia, transportada em hidroaviões e aeronaves. Estas utilizam pistas de pouso construídas em associação com outras missões, em aldeias próximas às do suruwahá, como a dos deni. Criada pelo pastor fundamentalista norte-americano Loren Cunningham, em 1960, a Jocum chegou ao Brasil em 1975. Entrou em contato com os suruwahá em 1984, com a justificativa de proporcionar assistência médica aos indígenas. A avaliação da Funai é que a assistência é ineficiente e funciona apenas como álibi para a evangelização.

Desde o primeiro contato da Funai com os suruwahá, em 2000, ficou claro que alguma coisa estava errada na aldeia, conta Izac Albuquerque, o primeiro funcionário a alcançar a área. "Assim que cheguei, um grupo me cercou. Apontavam flechas envenenadas, me ameaçavam. Eles falavam que não gostavam da Funai, que a Funai matava e fazia tudo de ruim". Mais tarde se deu conta de que a recepção hostil tinha sido inflada pelos missionários. Para o Ministério Público Federal, as duas missões, evangélica e católica, são irregulares e devem retirar-se. Rivais, as duas entidades trocam acusações. O Cimi deu início às denúncias contra a atuação da Jocum, há dez anos, acusando-a de espalhar a gripe na região. Para se aproximar dos indígenas, a Jocum contara com um casal de missionários Edson e Márcia Suzuki, que aprenderam a língua. Em seguida, começaram a traduzir para o suruwahá conceitos cristãos e a intensificar o processo de evangelização. Foi nesse ponto que o Cimi denunciou a ação da Jocum. O que as missões não esperavam enfrentar é um drama ainda maior, no caso dos suruwahá em relação a outros povos, ainda não compreendido: o altíssimo índice de suicídio. Os suruwahá morrem voluntariamente. A taxa de suicídio de 8% ao ano é impressionante. No contrafluxo da tendência nacional, a população suruwahá está caindo nos últimos anos. Hoje são 137, em 2004 eram 145. Para o antropólogo João Dal Poz, que pesquisou o tema do suicídio entre os suruwahá, esse distúrbio tem origem em uma dinâmica de transformação sociológica, do modo de vida desse povo após a chegada dos brancos na região. Eles cultivavam uma relação belicosa e complexa com seus vizinhos, nutrida por magias e feitiçarias. "Sempre houve suicídio, mas nunca numa taxa tão alta. Parece-me que são reflexos da guerra religiosa entre católicos e evangélicos, instaurada inclusive entre as lideranças locais. Eles tentam se matar e muitas vezes se matam por qualquer bobagem", afirma Dal Poz. A análise da pirâmide demográfica atualmente é assustadora: não há adultos homens entre 45 e 60 anos. Para o Cimi, a Jocum e o descaso do governo federal são os maiores responsáveis. "É provável que esse aumento dos suicídios tenha a ver com as constantes saídas dos índios para as cidades, promovidas por alguns missionários evangélicos com o apoio da Funai e da Funasa", diz Josefa Alves, do Cimi. Ela defende o contato dos suruwahá com outro indígenas, o que os ajudaria a superar o etnotrauma, como define, decorrente do contato com seringueiros desde os anos 1980. Para a Jocum, a saída passa necessariamente pela "salvação religiosa". Os índios estão dominados por demônios e precisam "encontrar Jesus", como diz Bráulia Ribeiro. Por esse motivo, missionários da Jocum começaram a fazer rituais de exorcismo dentro da aldeia. O Cimi sustenta que a missão evangélica trouxe da Nova Zelândia dez xamãs da etnia maori, cujos rituais desagradaram aos pajés locais, que se sentiram desprestigiados.

Bráulia revida para afirmar que quando os índios são retirados das aldeias sempre há o consentimento da Funai e da Funasa. Os dois órgão negam. Mas a questão se tornou ainda mais emblemática em 2005, quando os missionários levaram para tratamento em São Paulo as pequenas Iganani e Sumawani, que, segundo eles, conforme costumes locais, seriam assassinadas por apresentarem deficiências físicas. Levaram também os pais da última, Kusiama e Naru. Diante da repercussão, dirigentes da Jocum tiveram de depor em audiência pública na Câmara dos Deputados, em Brasília, para explicar a retirada sem autorização das crianças da aldeia. Conseguiram angaria a simpatia de alguns parlamentares. Em Rondônia, onde a Jocum também é bastante ativa e mantém sua sede, a Associação do Povo Uru-eu-uau-uau, da região do rio Jupaú, denunciou que os missionários estariam comercializando sementes de mogno para o exterior ilegalmente. Para a Jocum, tratava-se de uma operação ligada a um convênio que seria firmado com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). A Embrapa não confirma a informação. "Nossa expectativa é que se avaliem as práticas do Cimi e a da Jocum e se identifiquem quem faz agressões culturais e comete ilegalidades. Não se trata de duas missão religiosas disputando espaço", afirma Francisco Loebens, coordenador do Cimi Norte, com atuação na região amazônica. Alguns anos atrás, três jovens missionários da Jocum - Júlio Nova, Nilson Carvalheiro e Nivaldo Carvalho - foram apanhados no meio de uma expedição ilegal. Tentavam estabelecer contato com o povo isolado hi-merimã, próximo aos suruwahá, contrariando a política da Funai de evitar o contato com os povos isolados.

A dinâmica da evangelização surpreende, ao se referir a temas inusitados. Há relato de um jovem suruwahá que ora para Jesus pedindo boas caçadas. "Um rapaz novo fez isso e matou, num só dia, as duas primeiras antas de sua vida. "No documento da Funai, há relatos variados de interferência cultural. Vizinhos dos suruwahá e também falantes da língua arawa, os banawa tinham o costume de abandonar o lugar onde moravam sempre que uma pessoa morresse. Após a morte, enterravam todos os haveres do morto, para que seu espírito não amedrontasse os vivos. Só a morte de uma velha banawa acabaria com a maldição. Certa vez, uma missionária da Jocum, conhecida por Fátima, depois do enterro, convenceu os indígenas de que se todos ficassem rezando a Deus o espírito da falecida não voltaria. Segundo o relato da Funai, os índios ficarm rezando a noite toda. Para a missionária, foi a oportunidade de fazê-los sentir "o poder de Deus e a sua superioridade". Diante da diversidade de povos indígenas próximos e da presença rarefeita da Funai, o antropólogo Dal Poz sugere analisar em termos genéricos a presença das missões na região. "A atuação dessas missões vincula-se aos objetivos ideológicos dos fundamentalismos evangélicos norte-americano, em seus esforços de evangelizar e converter os índios." Débora Duprat, subprocuradora-geral da República, concorda que a gravidade da questão se deve à ausência do Estado na Amazônia. "Várias comunidades são assediadas pelas missões. E neste caso dos suruwahá os missionários têm efetivamente o domínio, inclusive espiritual do grupo", afirma. A procuradora está preocupada com a repercussão que o filme lançado recentemente pela Jocum poderá causar. Hakani: Incinerado Vivo - A história de um sobrevivente chocou antropólogos e indigenistas no Brasil pelo forma como os índios são retratados. Dirigido por David Cunningham - filho do fundador da Jocum - , o filme conta a história da menina Hakani, sobrevivente a uma tentativa de infanticídio. Seus pais e alguns parentes teriam se suicidado por causa disso. Hakani foi entregue aos missionários e com eles vive até hoje. Trata-se de um libelo contra o que os antropólogos e a própria Funai vêem como um elemento da cultura suruwahá. Para a procuradora, cabe uma ação de danos morais pela forma como os povos indígenas são tratados. "Denigre a imagem dos índios, acirra os preconceitos e usa-os para uma batalha da Jocum, que é a aprovação de uma lei despropositada que criminaliza a prática de infanticídio."Em seu blog, o ex-presidente da Funai Mércio Gomes considerou o filme "criminoso". E pediu que se fizesse uma denúncia para a "Polícia Federal, o Ministério da Justiça, a Secretaria de Direitos Humanos, a Funai, o Supremo Tribunal Federal e todas as instâncias judiciais, jurídicas e éticas do Brasil". A Funai diz que investiga o caso e estuda medidas judiciais contra a Jocum.

A expulsão da missão evangélica da terra indígena é dada como certa, mas já se passaram cinco anos desde que o Ministério Público Federal se pronunciou nesse sentido. O MP alega que o grupo indígena vive uma situação de vulnerabilidade, pelo contato recente. "A Jocum manipula os índios, coloca-se como amiga. Mas é um discurso para fora, na verdade os missionários desqualificam os índios, tratam-nos como selvagens, são preconceituosos", afirma Rodrigo Lines, que cobra da Funai a retirada dos missionários e defende a adoção de um programa de proteção. O temor geral é que ocorram novos suicídios caso a missão saia. "Se for preciso, vamos buscar uma medida mais enérgica entrar com uma ação, cobrando multa e medidas coercitivas. Isso em última instância, para não azedar e dificultar ainda mais a relação de confiança que a Funai e a Funasa devem estabelecer com os indígenas", diz Lines. Com a saída da Jocum, a Funai retomaria o controle da área para aplicar o modelo de atuação implantado junto ao povo zoe, visto como exemplar pela fundação. Os zoe viveram momentos parecidos, mas sob o domínio de outra missão, a MNTB, já expulsa. Agora, a Funai percebe uma situação mais tranqüila, com recuperação demográfica e bem-estar social, sob a supervisão do indigenista João Lobato, nos mesmos moldes das operações realizadas pelos irmãos Villas-Boas. De acordo com o presidente em exercício da Funai, Aloysio Guapindaia, enquanto a Funai for fraca, não haverá muito a ser feito, e o Brasil terá de conviver com esse tipo de ameaça à soberania política. "A sociedade tem de ter como objetivo a reestruturação do órgão indigenista", afirma. Hoje, caso a Petrobrás pretenda discutir os impactos do gasoduto Urucu-Porto Velho com os índios suruwahá, terá como interlocutora uma Funai "surda", incapaz de consultar os índios por sua conta, ou se submeter à tradução dos missionários evangélicos de uma organização norte-americana. Em terras da União, em pleno território amazônico, cuja soberania nos últimos tempos tem inflamado tantos ânimos.


Fonte: Carta Capital - edição 505 - 18 de julho de 2008

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Guerra por almas...


Essa matéria é do ano passado, mas ainda hoje a situação não ficou definitivamente resolvida, e tão cedo não será.... Os missionários e as Igrejas estão encravados dentro das áreas indígenas e infelizmente, ainda são os veículos que mais tem acesso e mobibidade dentro das comunidades, mesmo as mais isoladas...

A presença e as ações dos missionários continuam, como nos tempos da conquista e colonização do Brasil, a serem as formas mais eficazes de dominação e oferecem através do paternalismo, medidas para abrandarem as miserias e a pobreza dentro dos povoados. Mas, em troca de pão eles lhes levam a alma....


A guerra pelas almas
Data: 24/07/2008

Veículo: CORREIO BRAZILIENSE - DFEditoria: BRASIL Jornalista(s): Leonel Rocha
Assunto principal:
CIMI FUNAI INDÍGENAS ÍNDIO


Projeto de lei criado por evangélicos busca criminalizar o infanticídio nas tribos. Para especialistas, proposta é reflexo da atuação de entidades que tentam converter os índios ao cristianismo sem respeitar sua cultura


Leonel Rocha
Da equipe do Correio

A disputa entre católicos e os vários segmentos evangélicos chegou à taba. O Projeto de Lei nº 1057, que considera criminosa a pessoa que praticar ou conhecer e não denunciar o infanticídio indígena, é a parte visível da guerra pelas almas dos índios brasileiros. Prevista para ser votada no segundo semestre pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, a proposta divide religiosos, indigenistas e antropólogos sobre a prática de alguns povos que sacrificam crianças portadoras de necessidades especiais e comprometimento cerebral, entre outros casos. A disputa para cristianizar os índios coloca, de um lado, missionários católicos e, do outro, alguns segmentos evangélicos que patrocinam o projeto.
Apresentado no ano passado pelo deputado evangélico Henrique Afonso (PT-AC), o PL não tem data para ser votado no plenário da Câmara. Há uma semana, uma manifestação no Congresso levou grupos de militantes evangélicos de várias denominações a reivindicar a aprovação da lei. O parecer da deputada Janete Pietá (PT-SP) descarta a criminalização do infanticídio indígena. Pietá optou por um texto, ainda a ser votado na CDHM, prevendo a criação de um conselho tutelar indígena e a adoção de uma campanha educativa para evitar o infanticídio, ainda mantido por povos como os Suruwará. Eles vivem entre os rios Purus e Juruá, no Amazonas, e consideram a morte de crianças um instrumento de controle de natalidade. A prática foi tema do filme Hakani, produzido pelo escritório brasileiro da organização evangélica Jovens com um ideal (Jocum), como parte de uma campanha internacional pelo fim do infanticídio nas tribos.
Batalha
A disputa pelas almas dos Suruwará motivou uma batalha judicial entre católicos e evangélicos. Em contato com os índios desde 1980, há cinco anos o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), da Igreja Católica, entrou com uma representação no Ministério Público Federal contra a atuação da Jocum na aldeia. A representação foi motivada por um "diário de campo" deixado pelos evangélicos na aldeia e encontrado por missionários do Cimi. Segundo a entidade, o texto continha uma doutrina que considera as religiões indígenas uma manifestação demoníaca, o mesmo princípio usado historicamente pela Igreja Católica desde o Descobrimento e abandonado na década de 1960. A Procuradoria da República em Manaus conseguiu que a Justiça determinasse a saída dos missionários da Jocum da aldeia. Mas a organização resiste em deixar a área, alegando que está ali para combater o sacrifício de crianças doentes.
"Qualquer religião é perversa com os indígenas. Os missionários tentam colonizar os índios impondo o pecado e o medo do inferno", critica Gersem Baniwa, doutor em antropologia e indígena que viveu até os 10 anos na aldeia Yakirana, no Amazonas. "As religiões ocidentais surgiram para dominar cultural e espiritualmente o mundo e também os índios. É o imperialismo religioso que acaba com a convivência coletivista das aldeias", lamenta. Entre as conseqüências da atuação religiosa nas aldeias está a mudança de hábitos e rotinas dos indígenas. Uma delas é a guarda de um dia de descanso depois de uma semana de trabalho, como está na Bíblia. Poucos índios adotam o calendário ocidental, mas alguns grupos estão sendo convencidos a adiar pescarias ou caças por ser sábado ou domingo.


Arsenal
Para transformar índios em cristãos, católicos e evangélicos não medem esforços. Montaram um arsenal para a tarefa. Fundado na década de 1970, o Cimi conta com cerca de 350 missionários padres e leigos, possui rádio, revista e jornal. Os evangélicos fundaram a Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB), que reúne 600 missionários e abriga diferentes entidades. A organização da AMTB, que tem 25 agências entre os índios brasileiros, chega ao detalhe de fazer um levantamento sobre quais tribos já foram evangelizadas e quantas ainda estão isoladas. A ONG detalha em seu site quais etnias possuem a Bíblia completa no próprio idioma e define como objetivo levar os princípios evangélicos a 120 outros povos. Na internet, a AMTB chega a oferecer a adoção de vários povos que, segundo eles, não conhecem a palavra de Deus.
Nessa guerra, evangélicos e católicos apresentam estratégias diferentes. O antropólogo e pastor presbiteriano Ronaldo Libório, um dos coordenadores da AMTB, nega que os missionários da associação obriguem os índios a adotarem o cristianismo como religião, abandonando suas culturas. Segundo ele, os valores do evangelho não são incompatíveis com nenhuma sociedade humana, muito menos os índios. Revela que, no processo de conversão dos indígenas, há batismo, mas ressalva que a principal atividade dos missionários é aliviar o sofrimento dos povos das florestas com a implantação de projetos sociais nas áreas de saúde e educação.
Já os missionários do Cimi não consideram o infanticídio uma prática selvagem dos índios e defendem que essa cultura tem lógica nas aldeias com pouco contato com a cultura ocidental. "Não podemos tratar os índios que têm essa prática como bandidos", argumenta Saulo Feitosa, secretário adjunto do Cimi. A entidade inaugurou há alguns anos um novo método de evangelização. Não batiza as crianças indígenas e aceita a teologia e os rituais dos diversos povos. Os católicos adotam o que chamam de "missão calada" e esperam que só com o exemplo possam conquistar almas dentro das florestas.
O proselitismo cristão nas aldeias assusta estudiosos e indigenistas. O antropólogo Rubem Thomaz de Almeida defende que o governo estabeleça regras para a entrada e permanência dos missionários nas aldeias. "Os missionários católicos adotam a educação clássica como método de dominação política. Os evangélicos impõem proibições que impedem o diálogo cultural com os índios", analisa. O ex-presidente da FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO (FUNAI), Mércio Pereira, defende a saída dos missionários da convivência direta com os indígenas. Ele entende que, antes da Bíblia, os índios deveriam ter uma educação formal laica para evitar práticas como o infanticídio, por exemplo. "O que esses missionários cristãos querem mesmo é salvar as próprias almas", critica.
"Os missionários tentam colonizar os índios impondo o pecado e o medo do inferno" - Gersem Baniwa, antropólogo
"O que esses missionários cristãos querem mesmo é salvar as próprias almas" - Mércio Pereira, ex-presidente da FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO (FUNAI)


Por um novo modelo
O movimento evangélico indígena vai ganhar uma nova força em setembro e pode mudar de cara. O Conselho de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas (Conplei), entidade criada em 1990 e dirigida por representantes de vários povos, vai realizar, em setembro, no Amazonas, o sexto congresso da instituição para definir o modelo de cristianismo evangélico que será pregado nas aldeias. A Bíblia será difundida sem a participação de missionários "ocidentais". "Defendemos o intercâmbio cultural e religioso, com respeito às nossas tradições e uma evangelização contextualizada à nossa vida", explica Eli Ticuna, militante evangélico, teólogo e estudante de mestrado em administração.
O conselho funciona como uma supra-organização nacional de índios evangélicos, espécie de concorrente direto do Conselho Indigenista Missionário(CIMI), da Igreja Católica. Um dos principais objetivos é evitar a forma de atuação de pastores evangélicos que não pertencem às aldeias. "Queremos uma igreja com a cara do índio, que respeite a nossa diversidade cultural e não nos imponha conceitos", define Eli. O diálogo proposto pelo Conplei é mais fácil com as denominações evangélicas do que com os católicos.